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Missão de avaliação de meio termo acompanha avanços do Projeto Baru da Chapada nos territórios da Chapada dos Veadeiros
A atividade reuniu comunidades, organizações locais e parceiros para refletir sobre resultados, desafios e próximos passos da iniciativa voltada à conservação do Cerrado e ao fortalecimento da cadeia do baru
Entre frutos saborosos, estradas de terra, rodas de conversa e histórias compartilhadas, a missão de avaliação de meio termo do Projeto Baru da Chapada, um programa da Agência GEF FUNBIO, revelou que os resultados de um projeto podem ir muito além de indicadores técnicos. Realizada entre os dias 12 e 14 de maio, a atividade marcou um momento de escuta, reflexão coletiva e fortalecimento das estratégias construídas junto às comunidades da Chapada dos Veadeiros.
Com participação de representantes do FUNBIO, do IEB, da Associação Quilombo Kalunga (AQK), da Cooperativa Agroecológica Cooperfrutos do Paraíso e da consultoria responsável pela avaliação, a missão percorreu diferentes espaços do território para acompanhar de perto os impactos, desafios e aprendizados acumulados ao longo da execução do projeto.
A avaliação em campo buscou fortalecer um acompanhamento próximo, participativo e conectado às realidades locais. A missão também reafirmou o compromisso do projeto com a conservação do Cerrado, a geração sustentável de renda e o protagonismo de povos e comunidades tradicionais.
A programação teve início na sede do IEB, em Brasília, com uma reunião entre a equipe técnica, representantes e responsáveis pelos projetos GEF do FUNBIO e a consultora responsável pela avaliação, Joana Amaral. No dia seguinte, a missão seguiu para a Cidade da Fraternidade, em Alto Paraíso de Goiás, onde foram realizadas reuniões de governança e uma visita à sede da Cooperfrutos. Já no terceiro dia, o grupo participou do intercâmbio e visita de campo no território Kalunga, incluindo a sede da AQK, áreas de sistemas agroflorestais (SAFs) e o Complexo do Prata.
Ao longo da missão, as falas das lideranças locais reforçaram como o baru ultrapassa a dimensão produtiva e econômica, assumindo também um papel cultural, político e territorial.
“A comunidade do Sertão é onde a gente tem a maior concentração de baru da região. O baru faz parte da nossa vida, da nossa história tradicional”, afirmou Del, liderança da Associação dos Produtores e do Meio Ambiente do Sertão (APROMAS) e cooperada da Cooperfrutos do Paraíso. “É sabido que, muitas vezes, chega gente de fora para explorar e capitalizar em cima dos nossos conhecimentos. Mas o Projeto Baru da Chapada chegou de um jeito diferente e veio se adaptando às nossas realidades.”
A confiança construída ao longo da parceria foi um tema recorrente nas conversas. Del relembrou o primeiro contato com a equipe do IEB, durante um encontro na fase preparatória de elaboração do projeto:
“A honestidade delas (representantes do IEB) me surpreendeu. Elas disseram que o projeto ainda nem estava aprovado e que nada estava garantido, mas que estavam aqui para pensar a proposta do projeto junto com a gente. Ali eu já vi que seria diferente.”
Uma cadeia do baru construída coletivamente
O Projeto Baru da Chapada atua no fortalecimento da cadeia produtiva da castanha do baru como instrumento de conservação do Cerrado e geração de renda justa e sustentável para comunidades locais da Chapada dos Veadeiros. Executado pelo IEB, em parceria com a Associação Quilombo Kalunga (AQK) e a Cooperfrutos do Paraíso, o projeto busca fortalecer organizações comunitárias, implementar ações de governança, monitoramento e comunicação, além de fomentar estratégias de comércio justo e valorização da sociobiodiversidade do Cerrado.
Entre as ações desenvolvidas pela iniciativa está o Formar Baru, processo formativo continuado composto por 6 módulos presenciais e 5 tempos comunidade, voltado ao fortalecimento da cadeia do baru e das organizações comunitárias, com atividades relacionadas à gestão de empreendimentos comunitários, boas práticas, beneficiamento, comercialização e conservação do Cerrado.
A iniciativa é implementada pelo FUNBIO, financiada pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), e atua, entre 2022 e 2027, nos municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, São João d’Aliança, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás.
“O FUNBIO se preocupa em fazer um trabalho cuidadoso, escutando sempre quem vive nos territórios. A gente acompanha os relatórios do projeto, mas chegar aqui e ver acontecendo está sendo bom demais,” afirmou Fábio Leite, Coordenador da Unidade de Gestão de Programas e Projetos do FUNBIO.
Mulheres no centro da transformação
Um dos temas mais presentes durante a missão foi o protagonismo das mulheres na cadeia do baru e na organização comunitária.
“Agora temos uma diretoria exclusivamente feminina. Nosso PAA é composto basicamente por mulheres”, contou Thamilis Menezes, presidente da Cooperfrutos. “O Projeto Baru da Chapada trouxe a presença do IEB com uma potência enorme. Tem sido muito importante para o nosso fortalecimento, para ajudar a gente a falar e ocupar os espaços.”
A discussão sobre gênero também apareceu associada ao reconhecimento histórico do trabalho das mulheres extrativistas.
“O baru por muito tempo foi visto como coisa de mulher, de preguiçoso ou de quem precisava muito”, relembrou Del. “O projeto ajudou a desinvisibilizar as mulheres que sempre trabalharam catando baru e despertou orgulho por esse trabalho.”
Outro avanço destacado foi a criação de condições para ampliar a participação feminina nas atividades da cooperativa e do projeto.
“Todos os projetos e eventos da Cooperfrutos passaram a prever recursos para cuidadoras, para que as mulheres possam participar das reuniões e atividades. Isso a gente aprendeu com o IEB”, destacou Thamilis.
Conservação, renda e fortalecimento territorial
Ao longo das visitas, a missão também evidenciou como o fortalecimento da cadeia do baru vem contribuindo para impulsionar outros processos no território: acesso a políticas públicas, organização comunitária, formação de jovens, fortalecimento institucional e valorização da sociobiodiversidade do Cerrado.
“O baru foi uma peça-chave para valorizar outros frutos, as políticas públicas e o nosso território”, relatou Ezita Kalunga, vereadora e membra do conselho fiscal da AQK. “O IEB também está apoiando a construção de estruturas para beneficiar os nossos frutos e a nossa biodiversidade.”
Carlos Pereira, presidente da AQK, destacou a importância das parcerias para a estruturação do território quilombola:
“O nosso território, por muito tempo, era muito falado, mas pouco estruturado. Hoje conseguimos construir o primeiro armazém quilombola. E esse armazém, e várias estruturas novas daqui vieram de projetos do FUNBIO e também do IEB.”
As falas também revelaram desafios ainda presentes nas comunidades, como a falta de água, estradas precárias e ameaças ligadas à expansão da mineração e da soja. Ainda assim, as lideranças ressaltaram a força cultural, política e organizativa do território Kalunga, além da crescente ocupação de espaços institucionais por quilombolas e jovens do território. Nesse contexto, fortalecer as ações voltados para a cadeia do baru, e dos frutos da sociobiodiversidade como um todo, também significa fortalecer a permanência das comunidades em seus territórios, seus modos de vida e suas formas de organização coletiva.
