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Postado dia 29 setembro 2026

Encontro do Bolsas FUNBIO destaca contribuições da nova geração de cientistas para a conservação da biodiversidade

Da descoberta de novas espécies da flora ao levantamento de dados que ajudaram a incluir um pequeno felino na lista de espécies vulneráveis; do estudo dos efeitos das queimadas sobre morcegos à investigação dos impactos do protetor solar sobre os recifes de corais, chegando à admirável história de um sapo que impediu a construção de uma hidrelétrica. São trabalhos diferentes, mas com algo em comum: são pesquisas apoiadas pelo Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro que estão ampliando o conhecimento sobre biodiversidade e contribuindo para a conservação no país. Parte desses resultados foi compartilhada no dia 17 de setembro, em Porto Alegre, durante o encontro regional do programa, que reuniu pesquisadores gaúchos para compartilhar seus trabalhos, discutir desafios e contar um pouco do que acontece quando a pesquisa sai do papel e vai a campo.  O encontro foi o quinto da série de diálogos regionais promovidos pelo Bolsas FUNBIO para a troca de experiências e a integração entre cientistas. Os pesquisadores foram recebidos por Rosa Lemos de Sá, secretária-geral do FUNBIO com uma reconhecida trajetória na ciência, dedicada ao estudo de espécies de primatas ameaçadas de extinção; e por Eduardo Secchi, oceanólogo e professor titular do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), integrante do Conselho Deliberativo do FUNBIO. Além de apresentarem suas pesquisas, os cientistas discutiram os desafios de fazer ciência no país e sobre como aproximar o conhecimento produzido nas universidades da sociedade civil e das políticas públicas.  Maria Eduarda Alberti veio de longe. Foram mais de cinco horas de estrada, de Carazinho, no norte do Rio Grande do Sul, até Porto Alegre, para compartilhar com os colegas a importância de ter sido contemplada pelo Bolsas FUNBIO. Eduarda fez do amor pelos felinos o tema da pesquisa do Mestrado realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. No curso, iniciado em 2023, ela investigou o gato-do-mato pequeno (Leopardus guttulus), espécie encontrada em áreas de Mata Atlântica e de transição com o Pampa.   No entanto, as chuvas que atingiram o Estado em 2024 destruíram equipamentos da Universidade e quase interromperam os planos de Maria Eduarda. O apoio do Bolsas FUNBIO permitiu repor parte da estrutura perdida e, sobretudo, manter a pesquisa em campo. Além do suporte financeiro, a acolhida da equipe do programa também foi fundamental para Eduarda conseguir reorganizar a agenda de trabalho e seguir com a investigação. “Pesquisa tem risco, o estudante precisa ter a segurança de que pode ser acolhido. Por isso eu vim de longe agradecer pessoalmente pelo suporte que recebi de vocês”, explica Maria Eduarda. Os dados coletados durante a pesquisa contribuíram para a avaliação do gato-do-mato-pequeno como espécie vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).   Fernando Fernandes não imaginava que a pesquisa iniciada no mestrado, com apoio do Bolsas FUNBIO, o levaria tão longe. O ponto de partida era uma pequena flor amarela, a margarida-da-praia (Grindelia atlântica), espécie endêmica do Rio Grande do Sul e restrita ao litoral de Pelotas e Rio Grande. O trabalho de campo ampliou o conhecimento sobre a distribuição, a taxonomia e o estado de conservação da planta, que foi classificada como Criticamente em Perigo (CR), segundo os critérios da IUCN. Mas a margarida não ficou restrita aos artigos e relatórios. Ao dar visibilidade à espécie e à importância de sua conservação, o trabalho de Fernando ajudou a aproximar a margarida-da-praia da população local. A flor ganhou até um apelido carinhoso que traduz essa nova relação: “quindim de Pelotas”.  Durante a pesquisa de campo, Fernando entendeu que a pequena flor amarela ainda tinha muito a revelar. O que começou com a margarida-da-praia levou o biólogo a identificar outras seis espécies do gênero ameaçadas no Brasil — cinco delas novas para a ciência. Entre as descobertas estão a Grindelia rheophila, a primeira espécie fluvial do gênero já identificada no mundo, e a Grindelia mutabilis, que apresenta características morfológicas e filogenéticas que a posicionam como elo entre os gêneros Notopappus e Grindelia. “Tudo isso só foi possível porque o Bolsas FUNBIO viabilizou a pesquisa de campo inicial com as margaridas-da-praia, que abriram caminho para a descoberta das novas espécies”, afirma Fernando.  A pesquisa levou a pesquisadora Cintia da Costa do sul do país para o Cerrado. Doutoranda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela estuda os efeitos do fogo sobre padrões de ocupação de comunidades de morcego nas savanas brasileiras. O apoio do Bolsas FUNBIO viabilizou três anos de pesquisa de campo, com sucessivas permanências de um mês na Chapada dos Guimarães. As viagens permitiram levantar informações sobre espécies ameaçadas, identificar cavernas que são hotspots de morcegos na região e compreender melhor os efeitos dos incêndios sobre o comportamento das espécies. “Áreas de incêndios recorrentes já registram mudanças de hábito. Há espécies passando a ocupar áreas queimadas, e espécies deixando de ocupar as regiões mais afetadas por incêndios. Tem cavernas de uso exclusivo de morcegos pegando fogo e colocando em risco algumas espécies”, comenta a pesquisadora.   Do Cerrado para os campos de altitude do sul do Brasil, a pesquisadora Natália Vargas investigou a tolerância térmica de duas espécies de pequenos anfíbios que vivem em áreas muito restritas da Mata Atlântica. Avaliado como ‘criticamente em perigo’ pela IUCN, o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha sobrevive em um trecho de apenas 700 metros às margens do Rio Forqueta. Já o sapinho-verde-de-barriga-vermelha, classificado como vulnerável, é conhecido em apenas duas populações, em Cambará do Sul e São Francisco de Paula. Com apenas 3 a 4 centímetros, os sapinhos dependem da água para se reproduzir e são especialmente sensíveis às mudanças climáticas. E o problema não está apenas nas estiagens: ainda se sabe pouco sobre como esses pequenos anfíbios respondem às transformações do ambiente. A pesquisa de Natália mostrou que as duas espécies têm baixa tolerância ao calor, um dado que ajuda a dimensionar os riscos que o aumento da temperatura representa para sua sobrevivência.  Quando Natália ingressou no doutorado na UFRGS, em 2020, as duas espécies já mobilizavam pesquisadores e ambientalistas há mais de uma década. Para o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, havia uma razão especialmente urgente para a atuação em sua defesa: por anos, a proposta de construção de uma pequena hidrelétrica no Rio Forqueta ameaçava destruir o único lugar conhecido no mundo onde a espécie vive. Foram os dados científicos de um conjunto de pesquisadores que impediu que a hidrelétrica saísse do papel. Há uma proposta de criação de uma RPPN no local, ainda em negociação com proprietários — uma chance adicional de garantir que o pequeno território do sapinho-admirável-de-barriga-vermelha continue sendo também sua casa. Ao estudar como esses pequenos anfíbios respondem às mudanças do ambiente, Natália ajuda a produzir o conhecimento necessário para orientar sua conservação.  Quando a pesquisa encontra a sociedade  As doutorandas Ana Chiovatto e Carolina Grando têm um interesse em comum: entender como a ação humana interfere na vida dos recifes de corais. Alunas da UFRGS, as duas pesquisam o tema por caminhos distintos. Ana investiga como os filtros solares afetam espécies de corais nativos, enquanto Carolina amplia o olhar para os efeitos das mudanças climáticas, da poluição e do turismo sobre os recifes. Ainda no começo da pesquisa, as duas compartilharam não apenas o que já descobriram, mas também as perguntas – e a motivação – que orientam os próximos passos. Afinal, por trás de cada trabalho, há também uma trajetória, feita de escolhas e desafios: selecionada no edital de 2024, Carolina destacou o quanto o Bolsas foi importante para seguir em frente com a pesquisa em um momento especialmente desafiador de sua trajetória pessoal. “O Bolsas FUNBIO fez eu voltar a me enxergar como uma cientista, com ideias e projetos futuros”, afirma.  Ana chamou atenção para uma questão que acompanha quem produz conhecimento: o que fazer para que a pesquisa não fique restrita à universidade? No campo da conservação, a desinformação pode dificultar a compreensão dos problemas ambientais e a adoção de práticas mais sustentáveis. Em seu estudo sobre os efeitos do filtro solar nos recifes, ela investiga não apenas os impactos da benzofenona-3 sobre gametas e larvas de corais, mas também como transformar esse conhecimento em informação capaz de chegar às pessoas e influenciar comportamentos. “Hoje, não penso em seguir a carreira acadêmica. Quero trabalhar com educação ambiental e comunicação científica para ajudar a fazer com que os resultados das pesquisas tenham impacto e façam diferença na sociedade”, afirma.  Quando diferentes áreas do conhecimento se encontram, novas possibilidades de ação podem sugerir. Com dupla formação em medicina veterinária e biologia, Lis Santos aplicou o conhecimento que tinha de reprodução animal para outro campo, investigando como uma ferramenta de biotecnologia poderia contribuir para a conservação das abelhas sem ferrão — importantes polinizadoras e fundamentais para a manutenção da biodiversidade. No doutorado, ela desenvolveu uma metodologia para congelamento e armazenamento do sêmen das abelhas, criando uma alternativa mais acessível para a conservação de material genético, com potencial de adaptação a diferentes espécies. “Com a pesquisa, estruturamos um protocolo simples e acessível, sem a necessidade de equipamentos sofisticados. Além da importância para a conservação, existe também um potencial de aplicação na meliponicultura, inclusive como uma ferramenta que, no futuro, possa ser acessível a pequenos produtores”, explica.   Levar a ciência para além dos muros da universidade também significa reconhecer que nenhuma pesquisa começa ou termina em quem a realiza. Para o professor e pesquisador Eduardo Secchi, fazer ciência exige paixão, compromisso com a verdade e humildade para entender que o conhecimento é uma construção de longo prazo, que ultrapassa os limites de uma pesquisa individual. “O conhecimento vem sendo construído há milênios e não se resume ao achado individual de uma pesquisa. O que fazemos hoje serve de base para que outros pesquisadores possam avançar amanhã. Entender que fazemos parte dessa construção coletiva é um dos entendimentos mais importantes para quem faz ciência”, afirma.   

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Postado dia 29 setembro 2026

Cadeia do mercúrio: pesquisa investiga impactos do garimpo ilegal em morcegos amazônicos

O mercúrio usado na mineração ilegal de ouro pode percorrer um longo caminho até chegar à fauna amazônica. Lançado nos rios, o contaminante altamente tóxico – inclusive para nós – pode alcançar organismos aquáticos, passar para insetos e, destes, chegar também aos morcegos que se alimentam deles. Entender esse percurso e, principalmente, o que a contaminação provoca na saúde desses animais é o objetivo da pesquisa liderada por Daniela Bôlla, doutoranda do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), apoiada pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro 2025.  O trabalho parte de uma lacuna: já existem muitos estudos que registram a presença de mercúrio na fauna silvestre, mas ainda falta compreender como animais expostos em vida livre respondem fisiologicamente à contaminação. “A gente não está interessado em saber se tem ou se não tem mercúrio. Provavelmente vai ter. E aí, nesses bichos em que houver mercúrio, será que eles têm alguma condição fisiológica que possa indicar para nós uma resposta ao contaminante?”, explica a pesquisadora.  As amostragens serão realizadas em diferentes pontos da Amazônia, com duas áreas principais com forte presença do garimpo ilegal: a Volta Grande do Xingu, no Pará, e a região do rio Uraricoera e do Furo Santa Rosa, em Roraima, no entorno da Estação Ecológica de Maracá e próximo à Terra Yanomami.  Em campo, a pesquisa vai coletar amostras de solo, água e insetos, além de pelos dos morcegos capturados com redes de neblina – armadilha de malha fina quase invisível usada para capturar os animais com segurança – e soltos após a coleta. A intenção é acompanhar o contaminante ao longo da cadeia alimentar.   “Vamos mensurar mercúrio no solo, na água e nos insetos, que são as principais presas dos morcegos”, conta. “Estamos tentando rastrear também esse mercúrio vindo da cadeia trófica: desde o solo, para a água, para o inseto, até chegar ao morcego”, detalha Bôlla.  Apesar da pesquisa não ter foco específico em uma espécie, a pesquisadora chama atenção para espécies como o “Thumbless bat” ou “morcego sem polegar” (Furipterus horrens), ameaçado de extinção no Brasil que utiliza fendas em rochas próximas à água como abrigo. Essa relação estreita com ambientes aquáticos pode aumentar sua exposição aos contaminantes despejados nos rios.  Mais do que registrar a presença do metal pesado, a pesquisa pretende relacionar diferentes níveis de contaminação a alterações fisiológicas nos morcegos. “A gente já passou dessa fase de só reportar o contaminante. A gente precisa saber como os bichos estão sendo impactados para tentar criar medidas para remediar isso ou resolver”, ressalta a doutoranda.  Ela acrescenta que o apoio do Bolsas FUNBIO foi decisivo para viabilizar tanto as expedições quanto as análises laboratoriais. Trabalhar em regiões remotas da Amazônia envolve altos gastos com combustível, embarcações, barqueiros, mateiros, hospedagem e alimentação, além dos custos dos reagentes e equipamentos necessários para medir o mercúrio. As análises serão feitas com um equipamento chamado DMA-80, um analisador direto de mercúrio.   Com o apoio, o projeto poderá avançar da constatação da presença do mercúrio para uma questão mais complexa: compreender o que a contaminação provocada pelo garimpo significa, de fato, para a saúde e a conservação dos morcegos amazônicos. 

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Postado dia 29 setembro 2026

Pesquisa investiga distribuição e impactos do fungo que ameaça anfíbios no Ceará

Os anfíbios estão entre os animais mais vulneráveis aos impactos da crise climática atual. Essa, porém, não é a única ameaça global para o grupo. Um fungo letal para sapos, rãs e pererecas tem sido responsável pelo declínio de populações em todo o globo. A real extensão dos prejuízos causados pelo fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), ou simplesmente Bd, segue todavia um mistério em regiões como o Nordeste brasileiro. O biólogo  Bruno Guilhon, um dos selecionados pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro 2025 por meio do Fonseca Leadership Program do Global Environmental Facility (GEF), tem como objetivo investigar a ocorrência e dispersão do fungo, além de seus impactos nos anfíbios do Ceará.   O Bd é um patógeno que infecta principalmente a pele dos anfíbios, fundamental para funções como a troca de água, sais e oxigênio com o ambiente. E uma contaminação mais intensa da quitridiomicose é mortal para a maioria dos anfíbios. Embora o fungo já seja relativamente bem estudado no Sul e Sudeste do Brasil, em especial na Mata Atlântica, ainda existem lacunas importantes. “Sabemos muito pouco sobre o que acontece no Nordeste e, particularmente, no Ceará. É justamente essa lacuna que eu tento preencher”, pontua Guilhon, doutorando da Universidade Federal do Ceará (UFC).  A etapa inicial do seu projeto de pesquisa faz revisão bibliográfica dos locais onde o fungo ocorre no Brasil e analisa quais condições ambientais favoráveis para o patógeno. Além disso, combina modelagem computacional, coletas de campo e análises moleculares para entender onde o fungo ocorre, quais espécies estão infectadas e as linhagens genéticas do Bd que circulam no Ceará.   “De forma bem resumida, eu tento entender onde esse fungo está, quem ele está infectando, como ele pode estar se espalhando e como esse cenário pode mudar no futuro, considerando também as mudanças climáticas”, explica o pesquisador. O mapeamento irá apontar a probabilidade de ocorrência do Bd em diferentes regiões do Brasil, inclusive em lugares onde ele ainda não foi procurado.  Parte das análises do bolsista está sendo realizada junto ao Instituto de Zoologia da Sociedade Zoológica de Londres, a ZSL, no âmbito do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).   No Ceará, os esforços em andamento de Guilhon já identificaram novos pontos de ocorrência do Bd e renderam o primeiro registro da infecção em oito espécies de anfíbios, entre elas o ameaçado cururu-do-Cascon (Rhinella casconi) e a rãzinha-pulga (Adelophryne baturitensis), ambas endêmicas do Ceará.   O estado abriga uma fauna conhecida de 54 espécies de anuros (rãs, sapos e pererecas), muitas endêmicas dos chamados Brejos de Altitude, que são áreas de floresta úmida isoladas dentro da Caatinga. Nesse contexto, os Brejos merecem atenção especial por reunirem espécies de distribuição restrita e, ao mesmo tempo, condições de umidade e temperatura favoráveis ao fungo, alerta o pesquisador.  “A modelagem que realizamos também reforça essa preocupação. Os resultados mostram que existem várias áreas do Brasil com condições ambientais favoráveis à ocorrência do Bd onde ainda há poucos ou nenhum registro, inclusive na Caatinga”, ressalta Guilhon.  Por mais que o estudo já tenha evidências da presença do patógeno no estado, os dados preliminares ainda não são suficientes para afirmar que o fungo esteja provocando declínios populacionais nos anfíbios cearenses.  Em paralelo, outra frente da sua investigação busca compreender como o fungo consegue se dispersar pelo Nordeste e trouxe um resultado inesperado: o DNA do fungo foi encontrado nas patas de quatro espécies de aves limícolas (que vivem em áreas úmidas)  migratórias no município costeiro de Icapuí. Segundo Guilhon, são, até onde indica a literatura consultada pela pesquisa, os primeiros registros de Bd em aves no Brasil. A descoberta levantou a hipótese pouco estudada no Brasil de que esses animais possam participar da dispersão do fungo entre áreas úmidas.   “No Sul e Sudeste, a criação e o comércio de rãs são considerados vias importantes para a disseminação do Bd, mas essa explicação parece insuficiente para o Ceará e outras áreas da Caatinga, onde esse histórico é muito menor. Por isso, uma das hipóteses que estamos testando é se aves migratórias que passam pelo litoral cearense e utilizam ambientes aquáticos também frequentados por anfíbios podem funcionar como uma via alternativa de transporte do fungo”, detalha.  O próximo passo é verificar se o fungo transportado pelas aves permanece viável e comparar geneticamente essas amostras com as encontradas nos anfíbios. “Se essa conexão for confirmada, isso pode revelar uma rota de dispersão do Bd que praticamente não havia sido considerada no Brasil até agora”, reforça o pesquisador.  O apoio do Bolsas FUNBIO e do GEF tem papel central na execução do projeto, que envolve expedições por diferentes regiões do Ceará e análises laboratoriais de alto custo. Os recursos financiam deslocamento, hospedagem, materiais, reagentes e parte das análises genéticas necessárias para detectar, quantificar e caracterizar o fungo. “O financiamento permite fechar todo o ciclo da pesquisa: sair para o campo, obter as amostras, analisá-las no laboratório e transformar essas amostras em informações epidemiológicas e genéticas que realmente possam ser usadas para conservação”, destaca.  Além de ampliar o conhecimento científico sobre o Bd no Nordeste, os dados poderão subsidiar programas de monitoramento, medidas de biossegurança e futuras atualizações da Lista Vermelha da Herpetofauna Ameaçada do Ceará e do Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna do Nordeste.   “O principal resultado não é simplesmente dizer que determinada espécie tem ou não tem o fungo. É conseguir transformar essas informações em uma melhor avaliação de risco e, consequentemente, ajudar a decidir quais espécies, populações e áreas precisam ser acompanhadas ou protegidas com maior prioridade”, completa o pesquisador. 

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