Floresta Viva
Restauração ecológica dos biomas brasileiros com recursos do Fundo Socioambiental do BNDES e de instituições apoiadoras
FINACLIMA-SP
Mecanismo que viabiliza aportes de recursos privados, para ampliar e qualificar o financiamento climático no território paulista
AMAZÔNIA VIVA
Mecanismo de Financiamento Amazônia Viva fortalece organizações, negócios e a cadeias da sociobiodiversidade

Entre o açaí e o caranguejo, um estudo sobre bioeconomia no Pará
No litoral paraense, comunidades que vivem da pesca, do açaí e do extrativismo mostram, na prática, o que significa bioeconomia. O doutorando da Universidade Federal do Pará (UFPA), Jorge Alexandre Melo da Silva, mergulha na realidade da Reserva Extrativista Marinha de Mocapajuba (PA) para entender como esses modos de vida geram renda e sustento às famílias ao mesmo tempo em que contribuem para a conservação da floresta. Selecionado na edição de 2025 do Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro, por meio do Programa Fonseca de Liderança, do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês), ele busca usar seus dados para fortalecer a governança local e a sociobiodiversidade na área protegida federal. Localizada no município de São Caetano de Odivelas, a reserva extrativista (Resex) com cerca de 21 mil hectares, entre a Amazônia e o oceano, reúne 25 comunidades que dependem diretamente da natureza para viver. São cinco cadeias produtivas principais: a pesca, o caranguejo, o açaí, o mel e o cultivo de ostras. Essas atividades, parte do cotidiano das famílias, estão no centro da economia local, e profundamente conectadas ao ambiente. “A minha pesquisa procura entender como as comunidades que vivem dentro da reserva extrativista, dessa especificamente, utilizam esses recursos naturais para garantir sua renda e sustento. E como essas atividades podem contribuir para fortalecer a bioeconomia e também para a conservação da sociobiodiversidade dessas regiões”, resume Jorge. O estudo se organiza em três eixos principais: as cadeias produtivas locais, as políticas públicas (quais são, se são eficazes, como é acessada pelos extrativistas e quais suas barreiras e deficiências) e a governança, tanto institucional quanto comunitária. Para levantar esses dados, Jorge fará diversas visitas à reserva extrativista, nas quais conversa com moradores, pescadores, as lideranças comunitárias e os representantes de associações locais, como a Auremoca (Associação da Reserva Extrativista Mocapajuba) “Eu tenho contato direto com esses representantes, e é muito importante, porque me permite compreender melhor a realidade das pessoas que vivem nesse território, suas experiências, desafios, e também as oportunidades relacionadas às atividades produtivas desenvolvidas nesta região”, diz o doutorando, que também tem participado de reuniões como a do Conselho Deliberativo da Resex. Todo conhecimento levantado pelo pesquisador será traduzido em uma cartilha sócio-produtiva, disponível e acessível aos comunitários. O propósito é sistematizar esses saberes tradicionais aliado à pesquisa científica, documentar as práticas, as dinâmicas e desafios das comunidades. Um dos gargalos já identificados por Jorge é o acesso a dados e documentos necessários para ter acesso às políticas públicas. Por isso, transformando ciência em solução, o doutorando irá montar ainda um site com um banco de dados gerido pela associação de moradores. “Para além da pesquisa acadêmica, acredito que esse trabalho pode contribuir para valorizar a sociodiversidade da região, fortalecer as iniciativas de bioeconomia e apoiar a conservação dos recursos naturais da Amazônia. Sempre, é claro, respeitando os conhecimentos e as práticas tradicionais das comunidades que vivem nessa reserva”, pontua.
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As pistas invisíveis no combate ao tráfico de araras-azuis-de-lear
Mesmo após décadas de esforços de conservação, a arara-azul-de-lear ainda enfrenta uma ameaça persistente: o tráfico ilegal. Para ajudar a combater esse problema, a pesquisadora Isabela Prado, selecionada no Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro (2025) pelo Programa Fonseca de Liderança, do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês), ela usa pistas químicas deixadas no corpo das aves para revelar a origem de aves vítimas deste crime ambiental e, por meio da análise científica, gerar dados que fortaleçam as estratégias para conservação da espécie. Endêmica da Caatinga do norte da Bahia, a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) já esteve à beira da extinção. Em 1987, estimava-se que apenas 60 indivíduos viviam na natureza. Hoje, graças a ações de conservação, como proteção do habitat e programas de reintrodução, a população chega a aproximadamente 2,5 mil aves. Ainda assim, a espécie segue classificada como “Em Perigo”. Sua distribuição restrita, a dependência de áreas específicas para alimentação e reprodução e a baixa taxa reprodutiva aumentam sua vulnerabilidade. Entre as ameaças, o tráfico se destaca. Casos recentes de araras apreendidas no Suriname e no Togo, além de registros de tráfico de ovos da ave, mostram que a espécie, com alto valor no mercado ilegal, segue na mira dos criminosos. É nesse contexto que entra o projeto de pesquisa de Isabela. Sua proposta é usar informações químicas presentes em tecidos como penas, sangue e unhas para desvendar a origem e o histórico ambiental recente dos indivíduos. “Tudo o que o animal consome e o ambiente em que vive deixam registros naturais no corpo”, explica a doutoranda da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), no sul da Bahia. Essas marcas, que os cientistas chamam de assinaturas isotópicas, permitem identificar as características ambientais próprias de cada região, que resultam em combinações distintas, funcionando como registros naturais do local onde viveram ou se alimentaram. “Essa abordagem é especialmente relevante porque araras podem ser capturadas ilegalmente na natureza, mantidas em criadouros clandestinos e posteriormente traficadas. Quando uma ave é resgatada, muitas vezes não existem informações confiáveis sobre sua procedência ou sobre o tempo que permaneceu em determinado ambiente”, detalha Isabela. “Podemos usar essas informações para reconstruir parte da trajetória de aves apreendidas no tráfico”, destaca. Isso abre caminho para decisões mais seguras sobre ações de manejo, como a reintrodução, e até para fiscalização. Para executar sua pesquisa, Isabela irá a campo nas duas unidades de conservação em que a espécie ocorre: a Estação Ecológica Raso da Catarina e o Parque Nacional Boqueirão da Onça, onde serão coletadas amostras biológicas das araras em vida livre. Somado a isso, o estudo irá acompanhar indivíduos que passaram por mudanças de ambiente em situações monitoradas, como processos de reintrodução; analisar amostras de aves apreendidas do tráfico; e as assinaturas de animais mantidos sob cuidados humanos no Brasil e no exterior. Todo esse esforço de coleta irá permitir a comparação isotópica entre diferentes contextos ambientais que servirão de base para criação de um banco de dados de referência para futuras ações de conservação da arara-azul-de-lear. “O apoio do programa Bolsas FUNBIO é fundamental para viabilizar as análises laboratoriais das assinaturas isotópicas, que possuem custo elevado, além de contribuir para despesas relacionadas ao campo, coleta e processamento das amostras biológicas”, pontua a doutoranda. Na prática, os resultados podem orientar estratégias de combate ao tráfico e o planejamento de ações mais eficientes de conservação, destaca. Ao transformar sinais invisíveis em informação concreta, a pesquisa abre novas possibilidades para proteger a arara-azul-de-lear e mostra como a ciência pode ser uma aliada decisiva na conservação da biodiversidade brasileira.
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Os impactos de um primata invasor em refúgio da Mata Atlântica nordestina
A presença de uma espécie invasora pode estar silenciosamente alterando o equilíbrio de um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica em Pernambuco. Para investigar essa história e ajudar a orientar o manejo e a proteção da biodiversidade são os objetivos, a médica-veterinária Larissa Vaccarini, doutoranda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), irá contar com o apoio do Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro, por meio do Programa Fonseca de Liderança, do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês). Fascinada pelo desafio das espécies exóticas invasoras desde o início da sua carreira, seu projeto de pesquisa, selecionado pela edição 2025, busca compreender o impacto da população invasora de micos-de-cheiro na Reserva Biológica de Saltinho. A reserva federal foi criada em 1983 e protege cerca de 500 hectares de Mata Atlântica pernambucana que correspondem ao maior fragmento contínuo que restou no estado – um dos que mais desmatou o bioma, proporcionalmente, ao longo da história. Na mesma década de 80, há registros sobre a soltura de um grupo de cerca de 20 micos-de-cheiro (Saimiri sp.), nativos da Amazônia, dentro da reserva. Vítimas do tráfico, eles foram apreendidos e soltos na mata numa época em que não havia uma preocupação ecológica ou mesmo conhecimento tão grande sobre os riscos de soltar uma espécie fora de seu habitat original. Larissa conta que há um grande vazio de informações sobre o que aconteceu com esses animais nas décadas seguintes. Até 2014, quando um levantamento do ICMBio estimou que já havia cerca de 400 micos-de-cheiro em Saltinho. Mesmo com o salto populacional, até hoje não foi feita nenhuma ação efetiva de manejo desses invasores. Paralelamente, moradores do município de Tamandaré, vizinho à unidade de conservação, e pesquisadores que atuam na área relatam nos últimos anos uma floresta cada vez mais silenciosa. A ausência dos sons de animais, em especial das aves, pode ser uma consequência do estabelecimento do primata invasor. “Ali vivem várias espécies ameaçadas, incluindo pelo menos seis espécies de aves prioritárias para conservação. Como o mico-de-cheiro é um primata onívoro, existe a possibilidade de que ele esteja predando ovos e filhotes dessas aves, mas ainda não temos dados concretos sobre isso”, alerta a veterinária. Seu trabalho irá, em primeiro lugar, estimar o tamanho atual da população e mapear a distribuição dos micos dentro da reserva. Em seguida, Larissa pretende testar estratégias de captura baseadas no método inovador de “rede-armadilha” – onde os animais são atraídos com alimento e, no momento certo, um mecanismo fecha a rede para capturá-los em segurança. “Durante essas capturas, serão coletadas amostras biológicas que permitirão realizar análises genéticas mais precisas e investigar a origem desses primatas”, detalha a veterinária. Uma informação fundamental já que, até hoje, não há certeza sobre qual a exata espécie de mico-de-cheiro introduzida em Saltinho. Ela conta que a identificação do primata é fundamental para embasar qualquer decisão de manejo, inclusive a possibilidade de devolvê-los ao seu local de origem. “O objetivo do meu doutorado não é fazer imediatamente o controle populacional desses primatas. Em quatro anos de pesquisa, o que pretendo é produzir as evidências científicas necessárias para que esse manejo possa ser feito de forma eficiente no futuro”, resume. Em todo mundo, as espécies invasoras são uma das maiores ameaças à biodiversidade. Larissa acredita que seu trabalho pode apoiar a conservação além das fronteiras da reserva. “Cada espécie invasora exige abordagens diferentes de manejo. O caso dos micos-de-cheiro no Nordeste é um desses desafios. Se conseguirmos entender o que está acontecendo em Saltinho, poderemos gerar conhecimento que ajude a orientar ações semelhantes em outras áreas, tanto no Brasil quanto em outros países”, acredita a doutoranda, que já trabalhou no controle da invasão dos micos-estrela (Callithrix spp.) em Minas Gerais. O apoio do Bolsas FUNBIO, destaca Larissa, é parte fundamental da execução desse projeto. “O programa de Bolsas oferece uma grande liberdade para desenvolver pesquisas ambiciosas e relevantes para a conservação”, pontua. Os recursos irão viabilizar as campanhas de campo, testes de métodos de captura, a coleta de amostras biológicas e, com isso, “gerar as evidências necessárias para orientar ações concretas de conservação”, completa a pesquisadora.
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