Postado dia 24 julho 2026Um mapa do fundo dos rios para proteger peixes ameaçados no Rio Doce
No fundo dos rios, existe uma paisagem raramente vista com vales, declives, áreas profundas, trechos rasos e diferentes formas de relevo. Conhecer essa geografia submersa pode ser decisivo para proteger peixes ameaçados de extinção na bacia do Rio Doce. É o que busca a pesquisa de Rainieli Aparecida do Nascimento, mestranda na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e selecionada pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro, por meio do Programa Fonseca de Liderança, com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês).
O estudo utiliza a batimetria, técnica que permite medir a profundidade e mapear o relevo submerso em rios, lagos e oceanos. O equipamento funciona de maneira semelhante a um sonar: emite sinais que alcançam o fundo do rio e retornam com informações sobre suas características.
“Cada espécie de peixe prefere um tipo de habitat, principalmente aquelas que correm risco de extinção e possuem habitats mais restritos. Alguns peixes gostam de áreas mais profundas, outros de lugares mais rasos ou com mais curvas”, explica Rainieli. Ao cruzar o mapeamento dos rios com informações sobre as necessidades ecológicas das espécies, a pesquisadora pretende encontrar os ambientes mais adequados para a sobrevivência de cada uma delas.
Esses dados ajudarão a identificar quais áreas da bacia do Rio Doce devem ser consideradas prioritárias para a conservação de peixes ameaçados e subsidiar propostas para criação ou fortalecimento de áreas protegidas, por exemplo. “Afinal, para proteger nossa fauna, primeiro precisamos conhecer e cuidar da casa deles”, resume a pesquisadora.
O maior desafio, compartilha Rainieli, é obter as informações sobre os peixes já que, como muitos estão ameaçados, são raros, possuem populações pequenas, muitas vezes restritas a lugares remotos e consequentemente difíceis de estudar. “É como tentar encontrar uma agulha no palheiro”, compara a pesquisadora.
Até o momento, o trabalho da mestranda já conseguiu dados importantes sobre duas espécies. O surubim-do-doce (Steindachneridion doceanum) e o andirá (Henochilus wheatlandii), ambos classificados como Em Perigo de extinção no país e endêmicos da bacia do Rio Doce, em Minas Gerais. Ou seja, só podem ser encontrados ali. “O andirá é ainda mais exclusivo, porque ele só existe na bacia do Rio Santo Antônio, que faz parte da macrobacia do Doce”, acrescenta.
A primeira expedição de campo foi realizada em março deste ano no rio Santo Antônio, na região da Serra do Espinhaço, onde nasce o curso d’água. A equipe visitou áreas de ocorrência das espécies e definiu os locais onde serão realizadas as medições. A próxima etapa está prevista para agosto de 2026, durante o período de seca, quando a água fica mais limpa e clara, o que favorece o trabalho.
Nessa expedição, Rainieli irá percorrer cerca de 30 pontos estratégicos. Em cada local, usarão o equipamento de batimetria para extrair todas as características do relevo do fundo do rio. “Vai ser um trabalho intenso, mas fundamental para montar o nosso mapa de conservação”, afirma Rainieli.
Os recursos da bolsa irão custear as expedições, o transporte da equipe, a permanência em campo e a aquisição de equipamentos. “Esse investimento permitiu a compra de equipamentos de ponta, ou seja, a Bolsa FUNBIO está tornando possível aplicar alta tecnologia diretamente na conservação dos peixes da bacia do Rio Doce. Apoiar esse projeto é investir no futuro das nossas águas e das nossas espécies”, completa.
A expectativa de Rainieli é que os resultados possam orientar a criação de unidades de conservação e apoiar políticas públicas mais eficientes para a recuperação do rio Doce, comprometido pelo rompimento da barragem de rejeitos do Fundão, em 2015. Esse trabalho representa também a melhoria na qualidade de vida das pessoas, destaca a pesquisadora, uma vez que a preservação ambiental gera também saúde, oportunidades de lazer e renda. Além disso, os peixes fazem parte da identidade deste território e da subsistência de milhares de populações ribeirinhas.
“No fim das contas, essa pesquisa não é sobre peixes e o fundo do rio. É sobre justiça socioambiental unindo a força da ciência e do respeito pelas pessoas e pela história do Rio Doce”, reflete a mestranda.
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