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Projeto reúne comunidades tradicionais do Pampa em torno de práticas produtivas sustentáveis
As comunidades tradicionais do Pampa vêm lutando para manter suas identidades, territórios, modos de vida, campos e fauna nativos do bioma, num desafio que exige recursos financeiros. As famílias dos quilombos Ibicuí da Armada, em Santana do Livramento, Rincão da Chirca, em Rosário do Sul, e Pecuaristas Familiares Tradicionais do Pampa viram uma boa oportunidade na chamada 06/2025 realizada pelo GEF Terrestre e destinada a apoiar práticas produtivas sustentáveis em Unidades de Conservação e seus entornos nos biomas da Caatinga, Pampa e Pantanal. As comunidades elaboraram, juntamente com a Fundação Luterana de Diaconia (FLD), o projeto “APA do Yvyrapitã – Paisagens Socioprodutivas Conectando Ancestralidades no Pampa”, aprovado pelo edital, que apoia diretamente 60 famílias de comunidades tradicionais na Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã e no seu entorno.
Inserida no componente 2 do GEF Terrestre, focado no manejo de Unidades de Conservação e áreas adjacentes, a chamada nasceu com o objetivo de promover ações de uso sustentável de recursos naturais, apoiando atividades econômicas praticadas por populações locais que respeitem a biodiversidade e os ecossistemas em que estão inseridas. Juliana Mazurana, coordenadora do projeto, explicou que o edital oferece apoio à implantação e ao fomento de práticas produtivas sustentáveis. “Na construção da proposta nós conseguimos incluir demandas específicas destas comunidades, como a compra de ferramentas, material para a reconstrução de cercas e manutenções essenciais. E agora, com cinco meses de projeto, já percebemos bons avanços nas ações do projeto”, diz.
A participação destes grupos desde a construção da proposta até a sua execução também é um diferencial. A FLD realizou a contratação de duas assessoras de projeto, Mariglei Dias de Lima, do Kilombo Rincão da Chirca, e Maria Leci Vieira Vaqueiro, do Kilombo Ibicuí da Armada, além de uma assistente administrativa, Diennifer da Rosa Alves, moradora da região. Fernando Aristimunho, assessor de projetos da FLD e integrante do Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa, também tem acompanhado a equipe em todas as atividades.
O primeiro ciclo de encontros aconteceu logo após a efetivação da parceria com o GEF Terrestre e contou com uma atuação articulada da equipe do projeto com o Programa de Educação Antirracista (PEAR) da FLD. Ainda na primeira quinzena de abril o grupo esteve nas comunidades apoiadas e incentivou conversas e debates sobre memórias, práticas tradicionais e desafios, além de revisitar o plano de ação do projeto e reafirmar o interesse das famílias. A compra e a entrega de materiais como a de máquina de costura e bordado, e ativos como de aves de postura, de ovelhas, de sementes e de mudas de árvores frutíferas e nativas também já foram realizadas. “Eu converso com as famílias da minha comunidade, a Mariglei com a comunidade dela, e juntas estamos conseguindo atender demandas muito importantes”, explica Maria Leci.
Pecuaristas Familiares Tradicionais do Pampa
Em parceria com o Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa, a equipe do projeto também tem se empenhado em realizar visitas às prefeituras dos municípios em que atua, em especial em Santana do Livramento e Rosário do Sul, para dialogar e criar articulações institucionais. Por meio da parceria com o Comitê dos Povos e Comunidades Tradicionais do Pampa, a FLD e organizações parceiras, buscam o reconhecimento da Pecuária Familiar Tradicional do Pampa como comunidade tradicional.
“Nos sustentamos na lei estadual nº 13.515, criada em 2010, pois ela é o que regulamenta estas comunidades no momento. Mas vivemos uma luta diária pelo reconhecimento da nossa identidade”, explica Fernando Aristimunho. “Costumo dizer que o meu pai faleceu com 72 anos e nunca conseguiu acesso a políticas agrícolas e agrárias para manutenção do seu modo de vida e da sua identidade”, lamenta. Essa ainda é a realidade das famílias destas populações tradicionais apoiadas diretamente pelo projeto. “Sempre buscamos fortalecer a identidade dessas famílias, e atuar pela garantia de seus direitos e pela conservação ambiental através de usos tradicionais da região”, diz Fernando.
Presença em escolas
Junto a este árduo processo de reconhecimento identitário, a equipe do projeto também vai realizar atividades em três escolas municipais sobre educação antirracista, importância da conservação ambiental e da APA do Ibirapuitã, e do apoio as comunidades tradicionais do Pampa. A primeira reunião em uma das três escolas foi realizada em maio e já trouxe bons frutos, com ações de capacitação planejadas junto com a direção da escola.
Também há diálogos e articulações que só são possíveis porque as assessoras de projeto são integrantes das comunidades locais e lideranças no território, potencializando e ampliando as ações. “Conseguimos ir além do que estava em nosso escopo e começamos a desenhar a viabilidade da compra de alimentos da comunidade local para a alimentação escolar”, celebrou Juliana.
Essa iniciativa, conhecida como Catrapovos, instituída pela Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais do MPF (6CCR), visa fortalecer a economia da região e valorizar a sociobiodiversidade. “Estamos muito felizes por estar visualizando formas de implementar ações que há muitos anos queríamos, e não só as previstas pelo projeto, mas relativas a outras questões. Vários caminhos estão sendo abertos devido a este apoio”, avalia.
Além da iniciativa implementada pela FLD foram selecionados outros sete projetos na chamada 06/2025. São elas: “Carnaúba Viva: Inovação, Agroecologia e Desenvolvimento socioterritorial no entorno do Parque Estadual das Carnaúbas”, da Associação Caatinga; “Nas Águas do Salobra: Estratégias de Turismo de Base Comunitária para o Desenvolvimento Socioambiental no Pantanal do Mato Grosso do Sul”, do Instituto de Pesquisas Ecológicas; “Sementes do Araripe: Fortalecendo Práticas Socioprodutivas Sustentáveis na Caatinga”, do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (CEPAN); “Veredas Sustentáveis da Chapada”, do Instituto do Semiárido Baiano; “Monumento Vivo: Paisagens Produtivas e Turismo Sustentável para a Caatinga”, do Instituto Terraviva; “Sustenta – APA: Boas Práticas Pecuárias e Conservação da Biodiversidade na Área de Proteção Ambiental do Ibirapuitã”, da Associação para a Conservação das Aves do Brasil – Save Brasil; e “Fortalecimento das Boas Práticas Socioprodutivas e Sustentabilidade na APA Chapada do Araripe”, da Fundação Araripe.
