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As vozes dos primatas que podem guiar a conservação em Pernambuco
Antes mesmo de serem vistos entre as árvores, os macacos podem revelar sua presença pela voz. Gritos de alerta, chamados de contato e vocalizações de longa distância atravessam a vegetação e oferecem pistas sobre quais espécies ainda sobrevivem nos fragmentos de Mata Atlântica e Caatinga de Pernambuco. É por meio desses sons, combinados com relatos de moradores, análises e ciência cidadã, que a doutoranda Juliana Lacerda, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), pretende atualizar o conhecimento sobre a distribuição dos primatas no estado e, com esses dados, apontar áreas prioritárias para conservação.
A pesquisa, selecionada pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro 2025, irá mapear as cinco espécies de primatas que ocorrem em território pernambucano, quatro nativas e uma exótica invasora. Desde os ameaçados macaco-prego-galego (Sapajus flavius), guariba-de-mãos-ruivas (Alouatta belzebul) e o macaco-prego (Sapajus libidinosus), sob risco de extinção, até o comum sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus). O trabalho mapeará ainda a presença do invasor macaco-de-cheiro (Saimiri spp.), espécie amazônica introduzida em Pernambuco na década de 80, devido ao tráfico de animais silvestres.
“Minha pesquisa busca descobrir exatamente onde cinco espécies de macacos vivem em Pernambuco e como o ambiente ao redor afeta a comunicação deles”, explica Juliana. Para alcançar esse objetivo, o trabalho foi dividido em três etapas: educação ambiental e a coleta de informações com moradores; a elaboração de mapas de áreas potencialmente ocupadas; e a instalação de gravadores nas florestas para confirmar a presença dos animais.
Nesta primeira etapa, já finalizada, a pesquisadora realizou uma exposição itinerante sobre os primatas do estado, quem são e onde vivem, que rodou por 14 municípios e comunidades próximas a fragmentos considerados estratégicos no mapeamento. Ao todo, mais de 21 mil pessoas passaram pela exposição, que também permitiu a coleta de relatos dos moradores sobre possíveis pontos de ocorrência das espécies por meio de um mapa interativo. A aposta na ciência cidadã contou ainda com registros informais feitos em redes sociais e plataformas colaborativas, como o iNaturalist. “Essas marcações de localização funcionam como pistas valiosas, ajudando a nossa pesquisa a descobrir novos territórios ocupados por esses animais”, explica.
“A ciência cidadã funciona como um mapeamento colaborativo. Isso gera dados muito mais rápidos e em maior escala do que se dependêssemos apenas de metodologias tradicionais e expedições longas em campo”, completa a pesquisadora.
As informações coletadas nessa fase inicial foram cruzadas com dados de plataformas oficiais para identificação e análise dos fragmentos de floresta – tanto de Mata Atlântica quanto de Caatinga – que têm maior potencial para abrigar os primatas. Além disso, com uso de modelos matemáticos e estudos anteriores, o levantamento aponta características ambientais que possam estar associadas à presença de cada uma das espécies.
Com todos esses dados em mãos, Juliana deu início à validação em campo da ocorrência, ou não, dos primatas nos fragmentos com a ajuda de gravadores acústicos. “Nós instalamos esses gravadores escondidos nas árvores em cinco pontos de cada mata selecionada. Esses gravadores ficam gravando sem parar por cinco dias seguidos. Depois, analisamos os áudios no computador para identificar o som dos macacos e entender quais espécies aparecem ali”, detalha a doutoranda.
As vocalizações serão usadas também para entender como a estrutura da floresta pode afetar a forma que os primatas se comunicam.
Os recursos do Bolsas FUNBIO permitiram a aquisição dos gravadores acústicos e outros equipamentos, além de viabilizar os campos necessários para acessar os fragmentos florestais mapeados, muitas vezes em locais isolados.
“O apoio financeiro do FUNBIO é o que viabiliza a nossa pesquisa na prática. Além disso, a bolsa me traz a tranquilidade de ter dedicação exclusiva ao doutorado. Como mulher negra e pesquisadora local, esse apoio é fundamental para mostrar que nós também podemos e devemos liderar grandes projetos de conservação no Brasil”, resume Juliana.
A expectativa da doutoranda é que os resultados do seu mapeamento ajude a indicar fragmentos prioritários para conservação, com a presença de primatas ameaçados de extinção, e subsidiem instrumentos de política pública como Planos de Ação Nacional e Estadual para conservação de primatas no estado.
Ao mesmo tempo, a aproximação com as comunidades pode ser outro legado da pesquisa. “Promovemos a educação ambiental e a valorização da fauna nativa, transformando os moradores locais em protetores ativos da nossa fauna”, completa.
