Notícias
Cadeia do mercúrio: pesquisa investiga impactos do garimpo ilegal em morcegos amazônicos
O mercúrio usado na mineração ilegal de ouro pode percorrer um longo caminho até chegar à fauna amazônica. Lançado nos rios, o contaminante altamente tóxico – inclusive para nós – pode alcançar organismos aquáticos, passar para insetos e, destes, chegar também aos morcegos que se alimentam deles. Entender esse percurso e, principalmente, o que a contaminação provoca na saúde desses animais é o objetivo da pesquisa liderada por Daniela Bôlla, doutoranda do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), apoiada pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro 2025.
O trabalho parte de uma lacuna: já existem muitos estudos que registram a presença de mercúrio na fauna silvestre, mas ainda falta compreender como animais expostos em vida livre respondem fisiologicamente à contaminação. “A gente não está interessado em saber se tem ou se não tem mercúrio. Provavelmente vai ter. E aí, nesses bichos em que houver mercúrio, será que eles têm alguma condição fisiológica que possa indicar para nós uma resposta ao contaminante?”, explica a pesquisadora.
As amostragens serão realizadas em diferentes pontos da Amazônia, com duas áreas principais com forte presença do garimpo ilegal: a Volta Grande do Xingu, no Pará, e a região do rio Uraricoera e do Furo Santa Rosa, em Roraima, no entorno da Estação Ecológica de Maracá e próximo à Terra Yanomami.
Em campo, a pesquisa vai coletar amostras de solo, água e insetos, além de pelos dos morcegos capturados com redes de neblina – armadilha de malha fina quase invisível usada para capturar os animais com segurança – e soltos após a coleta. A intenção é acompanhar o contaminante ao longo da cadeia alimentar.
“Vamos mensurar mercúrio no solo, na água e nos insetos, que são as principais presas dos morcegos”, conta. “Estamos tentando rastrear também esse mercúrio vindo da cadeia trófica: desde o solo, para a água, para o inseto, até chegar ao morcego”, detalha Bôlla.
Apesar da pesquisa não ter foco específico em uma espécie, a pesquisadora chama atenção para espécies como o “Thumbless bat” ou “morcego sem polegar” (Furipterus horrens), ameaçado de extinção no Brasil que utiliza fendas em rochas próximas à água como abrigo. Essa relação estreita com ambientes aquáticos pode aumentar sua exposição aos contaminantes despejados nos rios.
Mais do que registrar a presença do metal pesado, a pesquisa pretende relacionar diferentes níveis de contaminação a alterações fisiológicas nos morcegos. “A gente já passou dessa fase de só reportar o contaminante. A gente precisa saber como os bichos estão sendo impactados para tentar criar medidas para remediar isso ou resolver”, ressalta a doutoranda.
Ela acrescenta que o apoio do Bolsas FUNBIO foi decisivo para viabilizar tanto as expedições quanto as análises laboratoriais. Trabalhar em regiões remotas da Amazônia envolve altos gastos com combustível, embarcações, barqueiros, mateiros, hospedagem e alimentação, além dos custos dos reagentes e equipamentos necessários para medir o mercúrio. As análises serão feitas com um equipamento chamado DMA-80, um analisador direto de mercúrio.
Com o apoio, o projeto poderá avançar da constatação da presença do mercúrio para uma questão mais complexa: compreender o que a contaminação provocada pelo garimpo significa, de fato, para a saúde e a conservação dos morcegos amazônicos.
