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Home - Notícias - Pesquisa investiga distribuição e impactos do fungo que ameaça anfíbios no Ceará

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Notícias

29/09/2026

Pesquisa investiga distribuição e impactos do fungo que ameaça anfíbios no Ceará

Foto: Bruno Guilhon/FUNBIO
Foto: Bruno Guilhon/FUNBIO
Foto: Bruno Guilhon/FUNBIO
Foto: Bruno Guilhon/FUNBIO
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Os anfíbios estão entre os animais mais vulneráveis aos impactos da crise climática atual. Essa, porém, não é a única ameaça global para o grupo. Um fungo letal para sapos, rãs e pererecas tem sido responsável pelo declínio de populações em todo o globo. A real extensão dos prejuízos causados pelo fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), ou simplesmente Bd, segue todavia um mistério em regiões como o Nordeste brasileiro. O biólogo  Bruno Guilhon, um dos selecionados pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro 2025 por meio do Fonseca Leadership Program do Global Environmental Facility (GEF), tem como objetivo investigar a ocorrência e dispersão do fungo, além de seus impactos nos anfíbios do Ceará.  

O Bd é um patógeno que infecta principalmente a pele dos anfíbios, fundamental para funções como a troca de água, sais e oxigênio com o ambiente. E uma contaminação mais intensa da quitridiomicose é mortal para a maioria dos anfíbios. Embora o fungo já seja relativamente bem estudado no Sul e Sudeste do Brasil, em especial na Mata Atlântica, ainda existem lacunas importantes. “Sabemos muito pouco sobre o que acontece no Nordeste e, particularmente, no Ceará. É justamente essa lacuna que eu tento preencher”, pontua Guilhon, doutorando da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

A etapa inicial do seu projeto de pesquisa faz revisão bibliográfica dos locais onde o fungo ocorre no Brasil e analisa quais condições ambientais favoráveis para o patógeno. Além disso, combina modelagem computacional, coletas de campo e análises moleculares para entender onde o fungo ocorre, quais espécies estão infectadas e as linhagens genéticas do Bd que circulam no Ceará.  

“De forma bem resumida, eu tento entender onde esse fungo está, quem ele está infectando, como ele pode estar se espalhando e como esse cenário pode mudar no futuro, considerando também as mudanças climáticas”, explica o pesquisador. O mapeamento irá apontar a probabilidade de ocorrência do Bd em diferentes regiões do Brasil, inclusive em lugares onde ele ainda não foi procurado. 

Parte das análises do bolsista está sendo realizada junto ao Instituto de Zoologia da Sociedade Zoológica de Londres, a ZSL, no âmbito do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).  

No Ceará, os esforços em andamento de Guilhon já identificaram novos pontos de ocorrência do Bd e renderam o primeiro registro da infecção em oito espécies de anfíbios, entre elas o ameaçado cururu-do-Cascon (Rhinella casconi) e a rãzinha-pulga (Adelophryne baturitensis), ambas endêmicas do Ceará.  

O estado abriga uma fauna conhecida de 54 espécies de anuros (rãs, sapos e pererecas), muitas endêmicas dos chamados Brejos de Altitude, que são áreas de floresta úmida isoladas dentro da Caatinga. Nesse contexto, os Brejos merecem atenção especial por reunirem espécies de distribuição restrita e, ao mesmo tempo, condições de umidade e temperatura favoráveis ao fungo, alerta o pesquisador. 

“A modelagem que realizamos também reforça essa preocupação. Os resultados mostram que existem várias áreas do Brasil com condições ambientais favoráveis à ocorrência do Bd onde ainda há poucos ou nenhum registro, inclusive na Caatinga”, ressalta Guilhon. 

Por mais que o estudo já tenha evidências da presença do patógeno no estado, os dados preliminares ainda não são suficientes para afirmar que o fungo esteja provocando declínios populacionais nos anfíbios cearenses. 

Em paralelo, outra frente da sua investigação busca compreender como o fungo consegue se dispersar pelo Nordeste e trouxe um resultado inesperado: o DNA do fungo foi encontrado nas patas de quatro espécies de aves limícolas (que vivem em áreas úmidas)  migratórias no município costeiro de Icapuí. Segundo Guilhon, são, até onde indica a literatura consultada pela pesquisa, os primeiros registros de Bd em aves no Brasil. A descoberta levantou a hipótese pouco estudada no Brasil de que esses animais possam participar da dispersão do fungo entre áreas úmidas.  

“No Sul e Sudeste, a criação e o comércio de rãs são considerados vias importantes para a disseminação do Bd, mas essa explicação parece insuficiente para o Ceará e outras áreas da Caatinga, onde esse histórico é muito menor. Por isso, uma das hipóteses que estamos testando é se aves migratórias que passam pelo litoral cearense e utilizam ambientes aquáticos também frequentados por anfíbios podem funcionar como uma via alternativa de transporte do fungo”, detalha. 

O próximo passo é verificar se o fungo transportado pelas aves permanece viável e comparar geneticamente essas amostras com as encontradas nos anfíbios. “Se essa conexão for confirmada, isso pode revelar uma rota de dispersão do Bd que praticamente não havia sido considerada no Brasil até agora”, reforça o pesquisador. 

O apoio do Bolsas FUNBIO e do GEF tem papel central na execução do projeto, que envolve expedições por diferentes regiões do Ceará e análises laboratoriais de alto custo. Os recursos financiam deslocamento, hospedagem, materiais, reagentes e parte das análises genéticas necessárias para detectar, quantificar e caracterizar o fungo. “O financiamento permite fechar todo o ciclo da pesquisa: sair para o campo, obter as amostras, analisá-las no laboratório e transformar essas amostras em informações epidemiológicas e genéticas que realmente possam ser usadas para conservação”, destaca. 

Além de ampliar o conhecimento científico sobre o Bd no Nordeste, os dados poderão subsidiar programas de monitoramento, medidas de biossegurança e futuras atualizações da Lista Vermelha da Herpetofauna Ameaçada do Ceará e do Plano de Ação Nacional para a Conservação da Herpetofauna do Nordeste.  

“O principal resultado não é simplesmente dizer que determinada espécie tem ou não tem o fungo. É conseguir transformar essas informações em uma melhor avaliação de risco e, consequentemente, ajudar a decidir quais espécies, populações e áreas precisam ser acompanhadas ou protegidas com maior prioridade”, completa o pesquisador. 

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