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Pesquisa mapeia rotas de aves marinhas ameaçadas no Nordeste em prol da conservação
Quando se trata da conservação de espécies migratórias, desvendar suas rotas, seus pontos de parada, alimentação, descanso e reprodução, é fundamental. Rastrear esses movimentos, porém, não é fácil. Para desvendá-los, o doutorando Rafael Revoredo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que quer mapear os trajetos percorridos por aves marinhas ameaçadas de extinção na costa semiárida brasileira, conta com a ajuda da tecnologias como GPS e telemetria.
O pesquisador é um dos selecionados na 8ª edição do Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro, por meio do Programa Fonseca de Liderança, do Fundo Global do Meio Ambiente (GEF).
“Imagine se o GPS do celular de uma pessoa ficasse ligado o tempo todo. Ao observar seus deslocamentos ao longo de um mês, seria possível identificar onde ela mora, trabalha, se alimenta e socializa. Se esse mesmo exercício fosse feito com muitas pessoas de uma cidade, surgiriam padrões de uso do espaço urbano. Com as aves, a lógica é parecida. Elas não carregam celulares, mas pequenos dispositivos de rastreamento permitem entender onde descansam, onde pescam, quais rotas utilizam e quais áreas são fundamentais para sua sobrevivência”, explica Rafael.
O estudo tem foco em duas espécies costeiras-marinhas ameaçadas: o trinta-réis-róseo (Sterna dougallii) e o trinta-réis-de-bando (Thalasseus acuflavidus), ambas classificadas pelo ICMBio como Vulneráveis ao risco de extinção.
Além de entender onde essas aves estão e por onde se deslocam no Oceano e ao longo da costa, Rafael busca compreender quais fatores influenciam essa escolha: o vento; a disponibilidade de alimento, como peixes e presas; e a presença de atividade humana ou mesmo estruturas artificiais na paisagem costeira. E o possível impacto de ameaças futuras como a instalação de eólicas offshore e das mudanças climáticas e o aumento do nível do mar.
Para isso, ele mapeou pontos de ocorrência para captura das aves que irão receber os dispositivos de GPS e os pontos de instalação das antenas receptoras responsáveis por coletar esses dados.
Como se tratam de aves migratórias, com largas áreas de distribuição, o pesquisador fará diversas expedições, indo desde o Rio Grande do Norte, principalmente no município de Galinhos, que será sua principal área de captura, até os estados do Ceará, Pará e na divisa entre Bahia e Sergipe. Rafael conta ainda com parcerias para coleta de dados nos Estados Unidos.
As campanhas são planejadas de acordo com os períodos em que já se sabe que as aves ocorrem com maior abundância nos diferentes pontos do litoral.
“A ideia é fazer também expedições exploratórias para descobrir novas áreas de uso dos animais entre Sergipe e Bahia, em novas áreas do Rio Grande do Norte e pontos do Norte do país, principalmente no Pará”, explica o doutorando. “Assim, poderemos marcá-las nesses novos locais e entender a movimentação que desempenham em outros ambientes também e expandir esse conhecimento”, acrescenta.
O escopo ambicioso da pesquisa só foi possível graças ao apoio do Bolsas FUNBIO, destaca Rafael. “A Bolsa do FUNBIO vai permitir que a gente vá mais longe, prospecte melhor novas áreas e consiga executar novas expedições que antes não estavam previstas por falta de recursos. Ela vem em um momento fundamental e permite que a gente consiga não só executar com maestria a pesquisa, mas até mesmo ir além”, avalia. Os recursos ajudarão a viabilizar expedições de campo, combustível, alimentação, hospedagem, aquisição de equipamentos e materiais.
Além de gerar conhecimento, o doutorando tem como objetivo apoiar a conservação das espécies, que já sofrem com impactos em linhas de transmissão de energia no estado potiguar. Com a pesquisa, Rafael espera ampliar o olhar sobre o que está acontecendo com esses trinta-réis ameaçados em outros pontos da distribuição da espécie. E mais importante, o que pode ser feito em termos de prevenção.
O trabalho está alinhado com as metas estabelecidas no Plano de Ação Nacional (PAN) para a Conservação das Aves Marinhas, que inclui 17 espécies-alvo, dentre elas o trinta-réis-róseo e o trinta-réis-de-bando. “Não é apenas a pesquisa pela pesquisa, é uma ação dentro do PAN. E, portanto, uma forma de fazer conservação efetiva”, pontua.
Ao identificar áreas prioritárias, rotas de deslocamento e riscos potenciais, o estudo pode subsidiar conversas com órgãos públicos, empresas e outros setores envolvidos no uso da zona costeira e marinha sobre boas práticas. “Para termos um desenvolvimento cada vez mais sustentável, que olhe para o futuro considerando também a conservação das espécies”, conclui.
