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Um mapa do fundo dos rios para proteger peixes ameaçados no Rio Doce
No fundo dos rios, existe uma paisagem raramente vista com vales, declives, áreas profundas, trechos rasos e diferentes formas de relevo. Conhecer essa geografia submersa pode ser decisivo para proteger peixes ameaçados de extinção na bacia do Rio Doce. É o que busca a pesquisa de Rainieli Aparecida do Nascimento, mestranda na Universidade Federal de Viçosa (UFV) e selecionada pelo Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro, por meio do Programa Fonseca de Liderança, com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês).
O estudo utiliza a batimetria, técnica que permite medir a profundidade e mapear o relevo submerso em rios, lagos e oceanos. O equipamento funciona de maneira semelhante a um sonar: emite sinais que alcançam o fundo do rio e retornam com informações sobre suas características.
“Cada espécie de peixe prefere um tipo de habitat, principalmente aquelas que correm risco de extinção e possuem habitats mais restritos. Alguns peixes gostam de áreas mais profundas, outros de lugares mais rasos ou com mais curvas”, explica Rainieli. Ao cruzar o mapeamento dos rios com informações sobre as necessidades ecológicas das espécies, a pesquisadora pretende encontrar os ambientes mais adequados para a sobrevivência de cada uma delas.
Esses dados ajudarão a identificar quais áreas da bacia do Rio Doce devem ser consideradas prioritárias para a conservação de peixes ameaçados e subsidiar propostas para criação ou fortalecimento de áreas protegidas, por exemplo. “Afinal, para proteger nossa fauna, primeiro precisamos conhecer e cuidar da casa deles”, resume a pesquisadora.
O maior desafio, compartilha Rainieli, é obter as informações sobre os peixes já que, como muitos estão ameaçados, são raros, possuem populações pequenas, muitas vezes restritas a lugares remotos e consequentemente difíceis de estudar. “É como tentar encontrar uma agulha no palheiro”, compara a pesquisadora.
Até o momento, o trabalho da mestranda já conseguiu dados importantes sobre duas espécies. O surubim-do-doce (Steindachneridion doceanum) e o andirá (Henochilus wheatlandii), ambos classificados como Em Perigo de extinção no país e endêmicos da bacia do Rio Doce, em Minas Gerais. Ou seja, só podem ser encontrados ali. “O andirá é ainda mais exclusivo, porque ele só existe na bacia do Rio Santo Antônio, que faz parte da macrobacia do Doce”, acrescenta.
A primeira expedição de campo foi realizada em março deste ano no rio Santo Antônio, na região da Serra do Espinhaço, onde nasce o curso d’água. A equipe visitou áreas de ocorrência das espécies e definiu os locais onde serão realizadas as medições. A próxima etapa está prevista para agosto de 2026, durante o período de seca, quando a água fica mais limpa e clara, o que favorece o trabalho.
Nessa expedição, Rainieli irá percorrer cerca de 30 pontos estratégicos. Em cada local, usarão o equipamento de batimetria para extrair todas as características do relevo do fundo do rio. “Vai ser um trabalho intenso, mas fundamental para montar o nosso mapa de conservação”, afirma Rainieli.
Os recursos da bolsa irão custear as expedições, o transporte da equipe, a permanência em campo e a aquisição de equipamentos. “Esse investimento permitiu a compra de equipamentos de ponta, ou seja, a Bolsa FUNBIO está tornando possível aplicar alta tecnologia diretamente na conservação dos peixes da bacia do Rio Doce. Apoiar esse projeto é investir no futuro das nossas águas e das nossas espécies”, completa.
A expectativa de Rainieli é que os resultados possam orientar a criação de unidades de conservação e apoiar políticas públicas mais eficientes para a recuperação do rio Doce, comprometido pelo rompimento da barragem de rejeitos do Fundão, em 2015. Esse trabalho representa também a melhoria na qualidade de vida das pessoas, destaca a pesquisadora, uma vez que a preservação ambiental gera também saúde, oportunidades de lazer e renda. Além disso, os peixes fazem parte da identidade deste território e da subsistência de milhares de populações ribeirinhas.
“No fim das contas, essa pesquisa não é sobre peixes e o fundo do rio. É sobre justiça socioambiental unindo a força da ciência e do respeito pelas pessoas e pela história do Rio Doce”, reflete a mestranda.
