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5º Ciclo do Fundo Kayapó: fortalecendo a floresta e o protagonismo Mebêngôkre
Entre a Amazônia e o Cerrado, no coração do chamado Arco do Desmatamento, estende-se um território contínuo de aproximadamente 11 milhões de hectares de floresta protegida. É ali que vivem mais de 12 mil Mebêngôkre-Kayapó, distribuídos em mais de 150 aldeias nas seis Terras Indígenas que formam o bloco Kayapó, entre os estados do Pará e Mato Grosso.
Em uma região pressionada por garimpo ilegal, exploração madeireira e grandes obras de infraestrutura, se a floresta permanece em pé é porque quem vive nela e dela, resiste. Uma das engrenagens que sustentam essa resistência há 15 anos é o Fundo Kayapó — um mecanismo financeiro permanente criado para apoiar a autonomia institucional, territorial e econômica das organizações indígenas.
No encerramento do seu 5º ciclo (2024–2025), o Fundo Kayapó apresentou resultados que combinam impacto territorial, fortalecimento institucional e maior rigor técnico. Foram R$ 4 milhões investidos em projetos estruturantes, R$ 600 mil em Projetos Locais. Todos os projetos encerraram a execução física e financeira em fevereiro de 2026 e já contam com prestações de contas parcialmente aprovadas.
Um dos principais marcos do 5º ciclo foi a seleção de Projetos Locais, desenhada para apoiar organizações de base comunitária. A iniciativa ampliou o acesso direto aos recursos e descentralizou o investimento dentro das próprias Terras Indígenas, fazendo com que novas aldeias e coletivos pudessem inscrever seus projetos.
- Associação Angrokrere – Fortalecendo a Governança para Geração de Renda (R$ 100 mil)
- Associação Cultural Indígena Kapot Jarina – Bep Kororoti: O Olho que Tudo Vê (R$ 100 mil)
- Associação Mekragnotire Sul – Kukradja Otyj – Fortalecer Associação (R$ 100 mil)
- Associação Ngonh Rorok Kre – Bàjkà Nhõ Ngô (apoio à cadeia da castanha) (R$ 100 mil)
- Associação Indígena Pore Kayapó – Arte e Identidade Étnica (apoio e desenvolvimento da cadeia produtiva do artesanato) (R$ 99.930)
- Associação Indígena Pykôre – Cacau Kayapó – Preservando a Tradição (R$ 100 mil)
Bioeconomia: geração de renda com a floresta em pé
Entre os resultados do ciclo, a produção sustentável se destaca como eixo estratégico. Foram coletadas quase 29 toneladas de castanha-do-pará, beneficiando diretamente dezenas de famílias envolvidas no processo. Na TI Menkragnoti, a implantação de um viveiro com 5 mil mudas de cacau fortaleceu a diversificação produtiva e garantiu a participação comunitária por meio da capacitação de 15 jovens em técnicas de cultivo e plantio. Mais de 1.000 m2 de Sistemas Agroflorestais (SAFs) foram implementados ou fortalecidos, integrando saberes tradicionais e conservação ambiental, além da segurança alimentar dos Kayapó, que unem os conhecimentos tradicionais de seus roçados com novas técnicas de plantio e cultivo.
No artesanato, os números revelam o potencial econômico da arte e cultura Kayapó: somente o Instituto Kabu registrou cerca de R$ 603 mil em faturamento em menos de um ano. Contando com recursos do Fundo Kayapó pela primeira vez, a Associação Pore (https://porekayapo.org.br/) adquiriu materiais, insumos e organizou 44 artesãs com códigos individuais de comercialização, marcando presença em feiras estratégicas como a Feira de Artesanato do Círio, o que gerou a experiência direta com um público estimado em 50 mil visitantes ao longo dos sete dias de evento.
Governança
A proteção do território é um dos eixos de atuação mais importantes para os Kayapó, por isso as ações de monitoramento e defesa territorial ganharam reforços estruturais neste ciclo. Com bases de monitoramento remoto equipadas, instalação de internet móvel em veículos de vigilância, expedições em áreas pressionadas pela pavimentação da BR-163 e a formação de jovens em sensoriamento remoto e comunicação, as organizações ampliaram suas ações de gestão territorial.
Outro resultado que merece destaque é a inclusão de mulheres e jovens nas atividades e nas instâncias decisórias das organizações e do próprio comitê de governança do Fundo Kayapó. As oficinas e formações técnicas e de incidência política trouxeram mais representatividade nas diretorias e conselhos comunitários, como o caso da Associação Mekragnotire Sul que teve uma menire eleita como vice-presidente da organização e o departamento de mulheres da AFP, que contou com o apoio do Fundo Kayapó para realizar sua primeira Assembleia.
Encerrando um ciclo importante, que estabelece marcos como a transição de governança, a ampliação de organizações apoiadas e o maior engajamento de lideranças jovens e femininas, o Fundo Kayapó se prepara agora para uma nova chamada de projetos. “Fazer com que os jovens se apropriem de ferramentas de gestão é fundamental para pensar em estratégias efetivas de consolidação da ocupação”, aponta Pingo.
Mais que um mecanismo financeiro, o Fundo Kayapó é hoje uma plataforma de fortalecimento territorial e institucional sendo redesenhada a partir do protagonismo Mebêngôkre.
