Funbio

Arpa: há 15 anos criando conexões 

Foto: Foto: Carlos Augusto / Programa Arpa

Natural de Goiânia, o biólogo Marcello Borges, 32 anos, trocou em 2014, as exuberantes cachoeiras da Chapada dos Veadeiros, em pleno Cerrado, pelos 385 mil hectares da densa floresta amazônica da Reserva Biológica (Rebio) Rio Trombetas, no Pará. Para ele: “um sonho realizado”. Borges é uma das centenas de pessoas que contribuíram para transformar o Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) em exemplo global de conservação, capaz de garantir a proteção da floresta e criar conexões. Este mês, são celebrados os 15 anos do decreto que criou o Arpa, que tem o Funbio como gestor financeiro.

– É muito inspirador e motivador estar no meio daquela riqueza biológica ímpar – diz o gestor sobre a Rebio, criada em 1979, e desde 2002 no Arpa, iniciativa do Governo Federal coordenada pelo MMA, que tem entre os principais doadores o KfW, o GEF (por meio do Banco Mundial), o Fundo Amazônia (por meio do BNDES), e o WWF.

Com 60% do território ocupado por 14 comunidades quilombolas, a unidade de conservação (UC), desde a sua criação, era marcada por conflitos fundiários. Órgãos fiscalizadores não permitiam a extração de castanha, que, segundo Borges é um “elemento crucial para a subsistência dessas populações”. Os conflitos se transformaram em harmoniosa convivência, com apoio do Arpa. Hoje, têm papel ativo no monitoramento da tartaruga da Amazônia, que encontra no local um dos principais locais de desova.

A primeira significativa atuação do Arpa na Rebio foi em 2006, quando o gestor ainda nem sonhava em largar as cristalinas águas do cerrado pelas florestas da Amazônia. O programa apoiou o Projeto Povos do Rio, que cadastrou todas as comunidades quilombolas do entorno e realizou um diagnóstico econômico, que mais tarde subsidiaria um termo de compromisso assinado pelo ICMBio permitindo atividade extrativista da castanha. Hoje, são quase 700 castanheiros beneficiados, que só em 2015 coletaram cerca de 845 toneladas, gerando renda para as famílias.

– A relação com as comunidades melhorou muito. Muita confiança e cooperação. Hoje, eles reconhecem o papel do ICMBio no território. Isso só aconteceu graças ao Arpa, que permitiu fazer as principais atividades e traz para a UC resultados significativos – diz Borges.

Além do trabalho com os quilombolas, o Arpa também apoia as ações de pesquisa e manejo da tartaruga da Amazônia (Podocnemis expansa) na UC, que há 36 anos era o principal ponto de desova do Brasil e chegou a abrigar 4 mil fêmeas adultas desovando anualmente. A captura e a coleta predatória de ovos quase levou a espécie em extinção: de 4 mil, o número despencou para 400, e a UC iniciou o monitoramento que envolve, além de agentes ambientais, 27 famílias quilombolas. São 24 horas por dia a partir deste mês, o primeiro da estação seca, para garantir que ninguém capture os animais que sobem às praias para desovar.

O monitoramento registrou, só em 2016, a soltura de mais de 43 mil filhotes.

– Recuperar a população de quelônios e garantir às comunidades tradicionais o acesso aos recursos provenientes da castanha é gratificante. O Arpa é essencial para isso – diz Borges.

 

 

 

 

 

 


Foto: Carlos Augusto / Programa Arpa – tartaruga-da-amazônia

Um dos meios de locomoção do gestor e dos parceiros da UC são as canoas motorizadas construídas com apoio do programa, em 2006. “São nossas pernas na água. As canoas nos permitem o deslocamento até as comunidades e transportar os agentes ambientais e quilombolas para os locais em que acontece o trabalho de proteção das tartarugas.

O trabalho na unidade não para durante todo o ano: no primeiro semestre acontece a extração da castanha e no segundo a proteção aos quelônios, que foi o principal motivo para a criação da Rebio. Espera-se que estes trabalhos possam de perpetuar por muitos anos e que o futuro dos povos e das espécies que dela dependem seja muito próspero.

Foto: canoas motorizadas – Acervo Funbio