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As pistas invisíveis no combate ao tráfico de araras-azuis-de-lear
Mesmo após décadas de esforços de conservação, a arara-azul-de-lear ainda enfrenta uma ameaça persistente: o tráfico ilegal. Para ajudar a combater esse problema, a pesquisadora Isabela Prado, selecionada no Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro (2025) pelo Programa Fonseca de Liderança, do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês), ela usa pistas químicas deixadas no corpo das aves para revelar a origem de aves vítimas deste crime ambiental e, por meio da análise científica, gerar dados que fortaleçam as estratégias para conservação da espécie.
Endêmica da Caatinga do norte da Bahia, a arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari) já esteve à beira da extinção. Em 1987, estimava-se que apenas 60 indivíduos viviam na natureza. Hoje, graças a ações de conservação, como proteção do habitat e programas de reintrodução, a população chega a aproximadamente 2,5 mil aves. Ainda assim, a espécie segue classificada como “Em Perigo”. Sua distribuição restrita, a dependência de áreas específicas para alimentação e reprodução e a baixa taxa reprodutiva aumentam sua vulnerabilidade.
Entre as ameaças, o tráfico se destaca. Casos recentes de araras apreendidas no Suriname e no Togo, além de registros de tráfico de ovos da ave, mostram que a espécie, com alto valor no mercado ilegal, segue na mira dos criminosos.
É nesse contexto que entra o projeto de pesquisa de Isabela. Sua proposta é usar informações químicas presentes em tecidos como penas, sangue e unhas para desvendar a origem e o histórico ambiental recente dos indivíduos.
“Tudo o que o animal consome e o ambiente em que vive deixam registros naturais no corpo”, explica a doutoranda da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), no sul da Bahia. Essas marcas, que os cientistas chamam de assinaturas isotópicas, permitem identificar as características ambientais próprias de cada região, que resultam em combinações distintas, funcionando como registros naturais do local onde viveram ou se alimentaram.
“Essa abordagem é especialmente relevante porque araras podem ser capturadas ilegalmente na natureza, mantidas em criadouros clandestinos e posteriormente traficadas. Quando uma ave é resgatada, muitas vezes não existem informações confiáveis sobre sua procedência ou sobre o tempo que permaneceu em determinado ambiente”, detalha Isabela. “Podemos usar essas informações para reconstruir parte da trajetória de aves apreendidas no tráfico”, destaca. Isso abre caminho para decisões mais seguras sobre ações de manejo, como a reintrodução, e até para fiscalização.
Para executar sua pesquisa, Isabela irá a campo nas duas unidades de conservação em que a espécie ocorre: a Estação Ecológica Raso da Catarina e o Parque Nacional Boqueirão da Onça, onde serão coletadas amostras biológicas das araras em vida livre. Somado a isso, o estudo irá acompanhar indivíduos que passaram por mudanças de ambiente em situações monitoradas, como processos de reintrodução; analisar amostras de aves apreendidas do tráfico; e as assinaturas de animais mantidos sob cuidados humanos no Brasil e no exterior. Todo esse esforço de coleta irá permitir a comparação isotópica entre diferentes contextos ambientais que servirão de base para criação de um banco de dados de referência para futuras ações de conservação da arara-azul-de-lear.
“O apoio do programa Bolsas FUNBIO é fundamental para viabilizar as análises laboratoriais das assinaturas isotópicas, que possuem custo elevado, além de contribuir para despesas relacionadas ao campo, coleta e processamento das amostras biológicas”, pontua a doutoranda.
Na prática, os resultados podem orientar estratégias de combate ao tráfico e o planejamento de ações mais eficientes de conservação, destaca. Ao transformar sinais invisíveis em informação concreta, a pesquisa abre novas possibilidades para proteger a arara-azul-de-lear e mostra como a ciência pode ser uma aliada decisiva na conservação da biodiversidade brasileira.
