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O artesanato como transmissão de saberes e autonomia das menire
Se você estiver em uma prosa boa e tranquila em Mebêngôkre (autodenominação do povo Kayapó), certamente a saudação “Mejkumrej!” será ouvida a cada poucos minutos de conversa. A palavra, na língua indígena, quer dizer “aquilo que é belo ou bom”, “aquilo que está bem”. Em outras traduções, aparece também como expressão de conexão e concordância com o que está sendo dito ou como um elogio. Um bom dia mais entusiasmado pode vir acompanhado de um mejkumrej, assim como uma lembrança feliz ou um relato que cause animação. Mais do que uma interjeição, mejkumrej é um conceito. Entre os Kayapó, ele atravessa a vida social, a estética, a ética e a forma de estar no mundo.
É nas mãos das menire, que significa mulheres na língua Mebênkôjre, que o mejkumrej ganha forma. Elas são as grandes responsáveis pela transmissão dos saberes das artes Kayapó. Embora o aprendizado comece ainda na infância, é com o nascimento de uma criança que a mulher passa a exercitar a pintura de forma mais cotidiana e autoral. A jovem mãe traduz, então, o conhecimento recebido das mulheres mais velhas de sua família em pinturas e adornos no corpo da criança que chega ao mundo.
Reconhecidos pela simetria e originalidade dos traços, os grafismos Kayapó são desenhados com precisão e delicadeza. Seja nos corpos e tecidos pintados com jenipapo e urucum, seja no trançado manual das cestarias, pulseiras, colares, brincos e gargantilhas, a arte Kayapó expressa um estado de beleza (meyx, na língua indígena) entendido como propósito para a continuidade da cultura.
O artesanato Kayapó é conhecimento que passa de geração em geração pelas mãos das mulheres mais velhas. Cada peça carrega histórias e ensinamentos sobre a cosmologia Kayapó e suas estéticas, sobre a artesã que cria um novo adorno e sobre as que vieram antes dela. Miçangas tramadas em padrões tradicionais formam uma diversidade impressionante de combinações de cores, desenhos e significados. Os homens também produzem artefatos valiosos para a manutenção da cultura Mebêngôkre, como bordunas, cestarias e cocares.
“Se não ensinarmos aos jovens, quem contará nossas histórias no futuro?, pergunta o cacique Ytei Metuktire, da T.I. Capoto-Jarinã numa das cenas do documentário Bep Kororoti – O Olho que Tudo Vê. Produzido na aldeia com equipe indígena e recursos do Fundo Kayapó, o filme retrata a força das atividades cotidianas da aldeia por meio de seus anciãos e lideranças, e também contempla a inserção da juventude na manutenção de sua cultura e territórios. As cenas captadas por Arewana Yudjá demonstram que o processo de transmissão dos saberes é um ato contínuo, que se dá nos fazeres da vida cotidiana, de geração em geração.
Renda, autonomia e floresta em pé
Além de fomentar a transmissão de conhecimentos ancestrais e a valorização dos modos de fazer tradicionais, o artesanato é hoje a principal fonte de renda para muitas mulheres Kayapó. As três principais organizações Mebêngôkre possuem marcas próprias e uma produção contínua que garante autonomia financeira para muitas mulheres e suas famílias. A Meprodjà, vinculada à Associação Floresta Protegida (AFP); a Arte Indígena, do Instituto Raoni (IR); e a Arte Kayapó, do Instituto Kabu movimentam a cadeia do artesanato em todas as suas etapas, desde a formação de novas artesãs até o escoamento dessa produção seja em eventos, lojas físicas e online.
Entre outubro de 2024 e junho de 2025, apenas o Instituto Kabu registrou cerca de R$603 mil em faturamento com a comercialização de artesanato, demonstrando que a floresta em pé também sustenta economias vivas. Pelas mãos de 68 mulheres uma receita de mais de R$43 mil chegou como renda direta para as artesãs que participaram das oficinas de pintura em tecidos promovida pelo Instituto Kabu neste ciclo.
Contemplada pela primeira vez pelo Fundo Kayapó com um projeto que fortalece o artesanato, a Associação Indígena Pore Kayapó (AIPK), localizada na T.I. Kayapó, fez com que 86kg de miçangas circulassem como matéria-prima de identidade, renda e valorização cultural ao longo do tempo de execução do projeto. Com 44 artesãs cadastradas, o projeto desenvolveu códigos individuais de venda e trabalha na implementação de uma loja virtual.
Entre grafismos, miçangas, decisões políticas e geração de renda, as cadeias produtivas lideradas pelas menires são mais que atividade tradicional. É a prova de que para os Mebêngôkre, cuidar da cultura, do território e dos saberes é uma forma de dizer mejkumrej!
