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Os impactos de um primata invasor em refúgio da Mata Atlântica nordestina
A presença de uma espécie invasora pode estar silenciosamente alterando o equilíbrio de um dos últimos remanescentes de Mata Atlântica em Pernambuco. Para investigar essa história e ajudar a orientar o manejo e a proteção da biodiversidade são os objetivos, a médica-veterinária Larissa Vaccarini, doutoranda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), irá contar com o apoio do Programa Bolsas FUNBIO – Conservando o Futuro, por meio do Programa Fonseca de Liderança, do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês). Fascinada pelo desafio das espécies exóticas invasoras desde o início da sua carreira, seu projeto de pesquisa, selecionado pela edição 2025, busca compreender o impacto da população invasora de micos-de-cheiro na Reserva Biológica de Saltinho.
A reserva federal foi criada em 1983 e protege cerca de 500 hectares de Mata Atlântica pernambucana que correspondem ao maior fragmento contínuo que restou no estado – um dos que mais desmatou o bioma, proporcionalmente, ao longo da história. Na mesma década de 80, há registros sobre a soltura de um grupo de cerca de 20 micos-de-cheiro (Saimiri sp.), nativos da Amazônia, dentro da reserva.
Vítimas do tráfico, eles foram apreendidos e soltos na mata numa época em que não havia uma preocupação ecológica ou mesmo conhecimento tão grande sobre os riscos de soltar uma espécie fora de seu habitat original.
Larissa conta que há um grande vazio de informações sobre o que aconteceu com esses animais nas décadas seguintes. Até 2014, quando um levantamento do ICMBio estimou que já havia cerca de 400 micos-de-cheiro em Saltinho. Mesmo com o salto populacional, até hoje não foi feita nenhuma ação efetiva de manejo desses invasores.
Paralelamente, moradores do município de Tamandaré, vizinho à unidade de conservação, e pesquisadores que atuam na área relatam nos últimos anos uma floresta cada vez mais silenciosa. A ausência dos sons de animais, em especial das aves, pode ser uma consequência do estabelecimento do primata invasor.
“Ali vivem várias espécies ameaçadas, incluindo pelo menos seis espécies de aves prioritárias para conservação. Como o mico-de-cheiro é um primata onívoro, existe a possibilidade de que ele esteja predando ovos e filhotes dessas aves, mas ainda não temos dados concretos sobre isso”, alerta a veterinária.
Seu trabalho irá, em primeiro lugar, estimar o tamanho atual da população e mapear a distribuição dos micos dentro da reserva. Em seguida, Larissa pretende testar estratégias de captura baseadas no método inovador de “rede-armadilha” – onde os animais são atraídos com alimento e, no momento certo, um mecanismo fecha a rede para capturá-los em segurança.
“Durante essas capturas, serão coletadas amostras biológicas que permitirão realizar análises genéticas mais precisas e investigar a origem desses primatas”, detalha a veterinária. Uma informação fundamental já que, até hoje, não há certeza sobre qual a exata espécie de mico-de-cheiro introduzida em Saltinho.
Ela conta que a identificação do primata é fundamental para embasar qualquer decisão de manejo, inclusive a possibilidade de devolvê-los ao seu local de origem. “O objetivo do meu doutorado não é fazer imediatamente o controle populacional desses primatas. Em quatro anos de pesquisa, o que pretendo é produzir as evidências científicas necessárias para que esse manejo possa ser feito de forma eficiente no futuro”, resume.
Em todo mundo, as espécies invasoras são uma das maiores ameaças à biodiversidade. Larissa acredita que seu trabalho pode apoiar a conservação além das fronteiras da reserva. “Cada espécie invasora exige abordagens diferentes de manejo. O caso dos micos-de-cheiro no Nordeste é um desses desafios. Se conseguirmos entender o que está acontecendo em Saltinho, poderemos gerar conhecimento que ajude a orientar ações semelhantes em outras áreas, tanto no Brasil quanto em outros países”, acredita a doutoranda, que já trabalhou no controle da invasão dos micos-estrela (Callithrix spp.) em Minas Gerais.
O apoio do Bolsas FUNBIO, destaca Larissa, é parte fundamental da execução desse projeto. “O programa de Bolsas oferece uma grande liberdade para desenvolver pesquisas ambiciosas e relevantes para a conservação”, pontua. Os recursos irão viabilizar as campanhas de campo, testes de métodos de captura, a coleta de amostras biológicas e, com isso, “gerar as evidências necessárias para orientar ações concretas de conservação”, completa a pesquisadora.
