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Restauração apoiada pelo GEF Terrestre recupera árvore sagrada para os Kadiwéu
Projeto une ciência e tradição para resgatar espécie rara e essencial à cultura indígena
Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, brigadistas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PrevFogo), técnicos do Ibama e indígenas Kadiwéu foram a campo para realizar o plantio de mais de 400 mudas de pau-santo, árvore rara e de grande valor simbólico para a comunidade local. Liderada pela professora Letícia Couto, do Laboratório de Ecologia da Intervenção da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), a iniciativa integra o programa GEF Terrestre e aproxima ciência, cultura e conservação na restauração da espécie.
Maior terra indígena do Mato Grosso Sul, com 539 mil hectares, o território kadiwéu tem sido continuamente afetado pelos incêndios ocorridos no Pantanal. Entre as espécies atingidas está o pau-santo. Nos últimos anos, a árvore passou a ocorrer apenas em áreas muito remotas do território, comprometendo o acesso dos próprios indígenas à resina extraída da espécie — matéria-prima da tinta preta usada na decoração da cerâmica e responsável pelo brilho característico do acabamento das peças.
Os Kadiwéu cozinham os galhos secos da árvore para extrair a resina negra usada na pintura das cerâmicas. Além do impacto positivo para o meio-ambiente, a restauração do pau-santo facilita o acesso dos indígenas à resina, fortalecendo a continuidade da tradição sociocultural na comunidade. Todas as demais colorações utilizadas nas cerâmicas também são retiradas de itens coletados na natureza, como pedras e sementes.
Originário do Gran Chaco — bioma presente na Argentina, Paraguai e Bolívia — o pau-santo (Bulnesia sarmientoi) cresce lentamente e possui madeira densa e aromática. No Brasil, a espécie ocorre em áreas de transição entre o Pantanal e o Cerrado, típicas do pantanal chaquenho. Recuperar a espécie ajuda a preservar tanto a cultura Kadiwéu quanto o equilíbrio ecológico dessa região.
Para localizar a espécie em campo, pesquisadores combinaram estudos científicos com o conhecimento tradicional dos Kadiwéu. “Conversas com o cacique, com os brigadistas – a maioria de origem indígena – e com as mulheres ceramistas foram fundamentais para traçarmos a rota de acesso às árvores para coleta das sementes que deram origem às mudas”, explica a professora e pesquisadora da UFMS, Fernanda Couto. “De Campo Grande (capital do Estado) até essa região da terra indígena, são mais de sete horas de viagem. É bem longe e de difícil acesso”, completa.
Embora considerada ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), no Brasil o pau-santo consta apenas do apêndice II da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES). Essa classificação indica que, apesar de não estar em risco crítico, a espécie requer controle para evitar a deterioração do seu estado de conservação. O projeto contribui para incluir o pau-santo no radar das espécies ameaçadas no país, favorecendo ações de restauração e estudos voltados ao manejo sustentável.
Expedições conjugam restauração e tradição
A iniciativa de restauração do pau-santo nasceu do diálogo com outras equipes de pesquisa da UFMS, responsáveis por estudos sobre efeitos do fogo e da inundação no Pantanal. Durante as expedições, pesquisadores identificaram o pau-santo como uma das espécies mais raras no campo e mais desafiadoras para a produção de mudas. “Havia outras espécies igualmente importantes para restauração, mas o pau-santo era muito mencionado porque ninguém conseguia produzir as mudas a partir das raízes da planta. Ficamos instigados pelo desafio”, explica Letícia.
A parceria com o FUNBIO começou em 2022. No mesmo ano, a equipe da professora Letícia registrou a primeira coleta de frutos maduros de pau-santo no país, permitindo a produção inicial de mudas a partir de sementes da planta no viveiro da Aldeia Barro Preto, criado com apoio da Mupan/Wetlands International, em território Kadiwéu. Em 2023, o brigadista Laercio Fernandes Ramos registrou a primeira floração da espécie no Brasil.
Em 2024, foram plantadas as oito primeiras mudas de pau-santo no território Kadiwéu. No mesmo ano, alunos das aldeias indígenas localizaram novas sementes das árvores geolocalizadas em expedições anteriores. A coleta ampliou a escala do projeto e viabilizou a produção de mais de 400 mudas, que deram origem ao plantio realizado em novembro de 2025. As expedições incluíram ainda capacitação de coletores, intercâmbio de saberes com a comunidade indígena e atividades de fortalecimento cultural.
As mudas foram plantadas em áreas definidas como prioritárias para a recuperação do território pós-incêndio. Parte delas ficou próxima às casas das ceramistas, facilitando o acesso das mulheres indígenas à resina utilizada na produção das peças. Crianças de diferentes aldeias também participaram do plantio, batizando as mudas e acompanhando seu desenvolvimento — um gesto simbólico para garantir que a tradição siga adiante com as próximas gerações.
Sobre o projeto:
A iniciativa “Estado de conservação, restauração ecológica e cadeia produtiva de espécies vegetais nativas de interesse indígena no Pantanal”, realizada pelo Laboratório de Ecologia da Intervenção da UFMS e pela Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura (FAPEC), integra o programa Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre). O programa é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Funbio como executor financeiro.
Parcerias: comunidade Kadiwéu, Associação de Brigadistas Indígenas da Nação Kadiwéu (ABINK), PrevFogo/Ibama, viveiro Flora do Cerrado da Prefeitura de Campo Grande, LASA/UFRJ, PELD/NEFAU, Associação das Mulheres Indígenas Kadiwéu (AMAK), Associação das Comunidades Indígenas da Reserva Kadiwéu (ACIRK), Culture of Resistance Network, EUTR, Usina de Triagem de Resíduos Sólidos e Canal Árvores & Rios.
