ÁREAS MARINHAS E COSTEIRAS PROTEGIDAS

Notícias

29/03/2018

GEF Mar: monitoramento por satélite gera informações centrais para a conservação de espécies

Bióloga Liliana Poggio Colman, doutoranda pela Universidade de Exeter (Inglaterra) e bolsista do Programa Ciência sem Fronteiras, do Governo Federal, utiliza transmissores e contratação do serviço de transmissão dos dados
A pesquisadora Liliana Poggio Colman com uma fêmea de tartaruga-de-couro monitorada depois da temporada reprodutiva 2017/2018. Foto de Henrique Filgueiras.
Alexandra Costa, bióloga doutora em Ecologia Aquática e bolsista GEF Mar
Alexandra Costa, bióloga doutora em Ecologia Aquática e bolsista GEF Mar, faz massagem para aliviar desconforto gástrico em peixe-boi que engoliu um pedaço de nylon. Foto do Acervo da APA Costa dos Corais/ICMBio.
Mapa mostra o trajeto percorrido pela tartaruga Botocuda
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“Botocuda” é uma das fêmeas da espécie de tartaruga marinha Dermochelys coriacea que utilizou as praias ao norte da foz do Rio Doce, no Espírito Santo, como área de desova durante a temporada reprodutiva 2017/2018. Junto com outras três fêmeas de tartaruga-de-couro ou gigante, como é conhecida popularmente a espécie que pesa em média 400kg, ela teve instalado em seu casco um transmissor para rastreamento via satélite como parte da pesquisa feita pela bióloga Liliana Poggio Colman, doutoranda pela Universidade de Exeter (Inglaterra) e bolsista do Programa Ciência sem Fronteiras, do Governo Federal, em parceria com equipes do Centro Tamar/ICMBio e Fundação Pró-Tamar. Recursos do Projeto Áreas Marinhas e Costeiras Protegidas (GEF Mar) foram utilizados para aquisição dos transmissores e contratação do serviço de transmissão dos dados. Das cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil, a tartaruga-de-couro é a mais ameaçada de extinção e tem distribuição restrita ao Espírito Santo.

“As ameaças à tartaruga-de-couro, como a poluição e o desenvolvimento costeiro, não cessam e novas ameaças emergem, como a contaminação recente da principal área de desova pelo acidente de mineração no Rio Doce ocorrido em 2015.” explica Liliana. A pesquisa de telemetria por satélite em tartarugas de couro no Espírito Santo não era feita desde a temporada reprodutiva de 2005-2006 em função dos altos custos envolvidos e segundo a bióloga “a informação gerada com apoio do Projeto GEF Mar será essencial para entender sobre as áreas de uso da espécie, bem como seu comportamento migratório depois de deixarem as praias de desova, indicando locais onde elas estão mais suscetíveis a ameaças.” Os resultados vão ser incorporados à base de dados do Plano de Ação Nacional para Conservação (PAN) das Tartarugas Marinhas.

O tempo de vida útil estimado do transmissor é de no máximo 500 dias. Além da rota percorrida, ficam registrados os lugares onde as tartarugas permaneceram mais tempo e detalhes sobre seu comportamento de mergulho, como profundidade, duração e temperatura da água. Estes e outros dados levantados desde 2015 fazem parte da pesquisa de doutorado de Liliana, que conta com financiamento do Programa Ciência sem Fronteiras, do Governo Federal, e apoio da The Rufford Foundation e British Chelonia Group.

Dos quatro transmissores instalados em novembro de 2017, dois ainda emitiam sinais em meados de março de 2018. O da Botocuda era um deles e mostrou que ela se aproximava da costa da África. Os pesquisadores estimam que Botocuda tenha percorrido aproximadamente 6200 km desde quando começou a ser monitorada em novembro de 2017, incluindo o período que continuou realizando desovas no Espírito Santo até cruzar o Oceano Atlântico. “Botocuda apresentava cortes e marcas de rede de pesca nas nadadeiras dianteiras quando foi flagrada desovando na praia de Regência, e seu nome foi escolhido em homenagem aos índios que ocupavam a região do Rio Doce. Caiu bem na fêmea guerreira que sobreviveu à pesca incidental e sabe-se lá ao que mais: colisões com embarcações e ingestão de lixo são outras ameaças que as tartarugas enfrentam nos mares.” acrescenta Liliana.

O monitoramento por satélite também vem sendo utilizado para acompanhar peixes-bois que passaram pelo Programa Peixe-boi marinho executado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) com gestão técnica do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (CEPENE). A Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, em Alagoas, é hoje o único local de soltura de peixe-boi marinho no Brasil. Desde 2017, o Projeto GEF Mar provê os recursos para contratação dos serviços de captação e transmissão de dados.

“O conhecimento sobre o uso de área e a distribuição espacial dos peixes-bois na APA Costa dos Corais obtido por meio da telemetrial satelital permite identificar as áreas de maior ocorrência dos animais e criar estratégias para conservação de suas áreas de alimentação, por exemplo,” explica Alexandra Costa, bióloga, doutora em Ecologia Aquática e bolsista do Projeto GEF Mar dedicada às ações de monitoramento e manejo de peixes-bois na APA. A atividade faz parte dos objetivos de soltura e monitoramento via telemetria do PAN Peixe-Boi Marinho, que foi revisado e será publicado em breve.

Atualmente dois peixes-bois são monitorados dessa forma na área da unidade de conservação, de onde não costumam se afastar após serem soltos. Um dos indivíduos é uma fêmea, batizada de Lua ao ser resgatada ainda filhote. Em seu passeio mais longo registrado pela equipe, Lua viajou do rio Manguaba em Porto de Pedras (AL) a Olinda (PE) em três dias, percorrendo aproximadamente 150km, retornando depois. Essa tecnologia permite aos pesquisadores acompanhar de “perto” os animais, que têm os transmissores substituídos sempre que necessário.

Lotada na base avançada da APA Costa dos Corais/ICMBio localizada em Porto de Pedras (AL), Alexandra e equipe também acompanham 10 peixes-bois realizando o chamado monitoramento por censo visual. Graças à marcação individual feita na nadadeira caudal e a inserção de chips subcutâneos, eles podem identificar os indivíduos que frequentam o rio Tatuamunha no entorno da base, durante os chamados de ocorrência de encalhes ou quando os animais estão interagindo com as pessoas em praias e rios da região.

“Nem todos os peixes-bois são considerados aptos para a soltura após passar pelo processo de aclimatação em semicativeiro. Um dos casos é o do macho Assu, resgatado há 18 anos no Ceará, com três tentativas de soltura desde então,” comenta Alexandra. Ela conta que mesmo sob cuidado permanente da equipe da base, Assu também não escapa da ameaça constante do lixo flutuante como as viajantes Lua e Botocuda, a tartaruga-de-couro. Ele já comeu sem querer um pedaço de nylon no rio. Manejos para ministrar medicamentos e fornecer alimento, além de compressas de água quente e massagens foram feitos para livrar da constipação o grandalhão – segundo o ICMBio, a espécie pode medir até 4 metros de comprimento e pesar até 600 quilos. Nada muito tecnológico como transmissão de sinais via satélite, mas eficaz e muito reconfortante.

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