FLORESTA VIVA
Restauração ecológica dos biomas brasileiros com recursos do Fundo Socioambiental do BNDES e de instituições apoiadoras
FINACLIMA-SP
Mecanismo que viabiliza aportes de recursos privados, para ampliar e qualificar o financiamento climático no território paulista
AMAZÔNIA VIVA
Mecanismo de Financiamento Amazônia Viva fortalece organizações, negócios e a cadeias da sociobiodiversidade

Entrevista | Bernardo Issa fala sobre a RedeTrilhas, importante iniciativa pela conservação ambiental
Criada em 2018 pelo Governo Federal, a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade - RedeTrilhas tem sido um importante instrumento de política ambiental e social ao fomentar a criação, manutenção e divulgação de grandes trilhas que atravessam os seis biomas brasileiros. Estruturadas a partir de critérios definidos pelo poder público, as trilhas vêm contribuindo para conectar áreas de proteção por meio de corredores ecológicos, fortalecer o vínculo entre sociedade e meio ambiente ao proporcionar experiências na natureza e impulsionar o turismo de base comunitária. Nesta entrevista, Bernardo Issa de Souza, trilheiro e Coordenador-Geral de Gestão do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), explica os benefícios ambientais e sociais trazidos por essa política, fala sobre a atuação da RedeTrilhas e dá dicas para quem quiser curtir as trilhas, sobre as quais você pode se informar neste link. Como e quando surge o conceito de trilhas de longo curso como ferramenta de conservação? As trilhas de longo curso são uma ferramenta de conservação no mundo todo, que pode seguir modelos diferentes. Tem o modelo norte-americano, por exemplo, que é focado no fortalecimento das áreas protegidas; o modelo europeu, que funciona mais como uma ferramenta de geração de emprego e renda e é menos conectado à natureza. O modelo brasileiro, que surgiu nos últimos anos, tem sido muito comemorado aqui e lá fora por concatenar um pouco dos dois acima. Estamos conseguindo juntar as duas propostas e fazer das trilhas um instrumento de desenvolvimento e afirmação regional, além de proporcionar mais conectividade entre as Unidades de Conservação. E qual o principal papel das trilhas para a conservação ambiental? A trilha de longo curso tem vários papéis, mas o mais relevante deles talvez seja o de gerar conectividade entre as áreas protegidas. A partir das trilhas, criamos corredores ecológicos que ajudam a fortalecer a conservação ambiental. Isso do ponto de vista físico, estabelecendo esses espaços e instalações florestais. Mas elas também proporcionam maior integração das UCs com o território em que estão inseridas, já que permitem que a unidade possa atuar além dos seus limites, ampliando a sua inserção regional. Além do papel para a proteção do meio ambiente, as trilhas de longo curso também atuam na geração de empregos para as populações que vivem em seu entorno? Como as trilhas ampliam os limites das UCs, elas também fortalecem o papel dessas áreas regionalmente. Todas contam com serviços de apoio, como hospedagem, alimentação, transporte, turismo, etc. Há toda uma dinâmica econômica em torno de uma trilha e esse é um benefício que evidencia a importância de uma área protegida no território. Muitas vezes, essas áreas de conservação estão em regiões em que há pressão do agronegócio e de outros setores que não permitem a conservação ambiental. Então, na medida em que se possibilita uma vantagem econômica decorrente da Unidade de Conservação, cria-se uma camada de proteção adicional que envolve a sociedade. Quantas trilhas de longo curso reconhecidas já existem no país? Elas estão em todos os biomas? No momento, temos 22 trilhas reconhecidas e uma que está na fase final. Acho que já podemos considerar que são 23. E, sim, temos trilhas de longo curso reconhecidas em todos os biomas brasileiros. E como uma trilha de longo curso passa a ser reconhecida pelo MMA? Quais são os pré-requisitos principais a serem cumpridos? A Portaria nº500, de 15 de setembro de 2020, define o que é exigido como requisito para que as trilhas sejam reconhecidas pelo governo. Esse processo é feito em duas etapas. A primeira é uma aproximação em que os interessados submetem a trilha para uma avaliação preliminar. Na segunda fase, entramos no que eu acho mais importante, que é saber qual será a instituição responsável pela trilha. Eu posso dizer que o principal requisito é que ela tenha um nível de governança. Tem que ter alguém que se comprometa com as ações de longo prazo para a manutenção da trilha. Então, além daqueles quesitos básicos — passar por uma Unidade de Conservação, promover a interligação desses territórios, ter um plano para geração de renda das comunidades próximas —, é fundamental que um grupo associado se comprometa a mantê-la e seja responsável pela permanência da trilha naquele território. O que é feito para garantir a segurança das pessoas que vão percorrer as trilhas? O principal ponto é a sinalização. Esse, aliás, é o principal avanço que a RedeTrilhas implementou neste processo. A sinalização é fundamental para garantir que todos os visitantes tenham acesso facilitado a informações cruciais no momento em que estão fazendo a trilha. Então, é preciso demarcar as áreas, sinalizar os caminhos e alertar sobre riscos. Tudo isso é fundamental para que as pessoas se sintam seguras durante a travessia. Também existe um conjunto de procedimentos indicados aos usuários, como não fazer a trilha sozinho, ter sempre os equipamentos básicos de segurança - como água e comida, kit de primeiros socorros, lanterna, entre outros -, informar a sua entrada e previsão de saída, entre outros. E, por fim, deve-se atentar às peculiaridades de cada trilha. As mais isoladas demandam um procedimento de informação mais apurado. Aquelas com perfil mais urbano podem contar com ferramentas de comunicação em que os visitantes possam reportar perigos e detalhes de manutenção facilmente. Mas a sinalização é um aspecto importante para todas elas sempre. Qual é o público dessas trilhas? Elas também são preparadas para receber visitantes com pouca ou nenhuma experiência? As trilhas estão abertas e preparadas para todos os tipos de visitantes. Existem trajetos mais curtos, mais longos, mais fáceis e mais difíceis. Em geral, recebemos visitas de pessoas mais jovens, de ciclistas e daqueles que buscam se reconectar com a natureza. Desde a pandemia de COVID-19, o número de visitantes em áreas naturais tem aumentado bastante e as trilhas são uma opção muito buscada por essas pessoas. Existe previsão para reconhecimento de mais trilhas em 2026? Sempre existe previsão de surgimento de novas trilhas. O reconhecimento é um processo permanente. Também estamos trabalhando pela aprovação de um decreto que poderá dar ainda mais relevância à política da RedeTrilhas. Está em tramitação. A partir da aprovação desse decreto, iremos ganhar mais forma e, com isso, mais recursos e apoio, fortalecendo as nossas ações de conservação como um todo. Será um avanço super importante. E você é trilheiro? Já chegou a visitar alguma dessas trilhas? Quase todas, desde criancinha. Isso é o que move a gente mais do que tudo. Difícil dizer em qual eu ainda não fui (risos).
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Primeira trilha de longo curso a atravessar a Caatinga é inaugurada
As paisagens da Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, acabam de ganhar novos pontos de vista com a inauguração da trilha de longo curso Caminhos da Ibiapaba, a primeira reconhecida pela Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade - RedeTrilhas a atravessar o rico conjunto de ecossistemas nordestino. Com 180 km de extensão, a trilha cruza o limite entre Piauí e Ceará no norte dos estados e liga três unidades de conservação - o Parque Nacional de Sete Cidades (PI), o Parque Nacional de Ubajara (CE) e a Área de Proteção Ambiental Serra da Ibiapaba (nos dois estados). É também a primeira no Brasil a passar por três diferentes biomas — Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Desenvolvida pelo Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM) em parceria com governos locais e com apoio do GEF Terrestre, a Caminhos da Ibiapaba é uma das 22 trilhas de longo curso homologadas pela RedeTrilhas, iniciativa do Governo Federal para a estruturação e o fomento delas. Para integrar a lista, é preciso cumprir os critérios ambientais, sociais, jurídicos e de governança estabelecidos pela Portaria 500 do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Ministério do Turismo e ICMBio. Outras duas trilhas estão em fase final de desenvolvimento com o apoio do GEF Terrestre. No Pantanal, a Travessia Guadakan está sendo consolidada pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP). Já o Instituto Pró-Pampa é o responsável pela implementação da trilha Caminhos do Pampa, que tem inauguração prevista para o primeiro semestre deste ano. Estratégia e atrativos A estratégia de estímulo à implementação de trilhas de longo curso do projeto GEF Terrestre parte do reconhecimento da relevância delas para o fomento do turismo de base comunitária, para a educação ambiental e para a conservação, pois ajudam também a formar corredores ecológicos que ligam áreas de proteção. Segundo Thiago Beraldo, coordenador do projeto ‘Estruturação e Sustentabilidade da Trilha Caminhos da Ibiapaba’, muitas das Unidades de Conservação da região funcionam como “ilhas”, isoladas dos ecossistemas aos quais pertencem por áreas privadas. “A palavra-chave para definir as trilhas de longo curso é conectividade e o principal objetivo em termos de conservação é ser um vetor de conectividade ecológica”, explica ele. Para que a nova trilha saísse do papel, foi importante elaborar estratégias fundadas no desenvolvimento sustentável. “Havia muita resistência dos proprietários das áreas privadas em concordar que a trilha passasse por suas terras. Por isso, foi muito importante gerar valor social e econômico para eles e os demais moradores das regiões”, diz Thiago, mencionando serviços de hospedagem, alimentação, transporte e turismo. Além dos atrativos naturais, as travessias apresentam também aspectos culturais e históricos das regiões que atravessam. Isso acontece na Caminhos da Ibiapaba, criada com base em uma antiga rota usada por mercadores “comboieiros”, que transportavam produtos do Ceará para o Piauí e Maranhão. A rota que atravessa os municípios de Tianguá, Ubajara e Ibiapina, no Ceará, e São João da Fronteira, Brasileira e Piracuruca, no Piauí, passa por comunidades que preservam casarios do século XVII, açudes e reservatórios, o que enriquece a experiência. Expedição inaugural Uma expedição inaugural que percorrerá os 180 km será realizada entre os dias 1º e 7 de fevereiro. Mas engana-se quem pensa que a Caminhos da Ibiapaba é uma opção apenas para atletas. A trilha é composta por 13 trechos com diferentes níveis de dificuldade, que podem ser percorridos isoladamente ou parcialmente. A travessia também pode ser feita de bicicleta, opção que tem agradado aos que já estiveram lá. “As pessoas estão gostando muito. Todos os usuários e, principalmente, os ciclistas”, fala Beraldo. O projeto GEF Terrestre é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) sob gestão e execução do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora.
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Restauração apoiada pelo GEF Terrestre recupera árvore sagrada para os Kadiwéu
Projeto une ciência e tradição para resgatar espécie rara e essencial à cultura indígena Uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, brigadistas do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (PrevFogo), técnicos do Ibama e indígenas Kadiwéu foram a campo para realizar o plantio de mais de 400 mudas de pau-santo, árvore rara e de grande valor simbólico para a comunidade local. Liderada pela professora Letícia Couto, do Laboratório de Ecologia da Intervenção da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), a iniciativa integra o programa GEF Terrestre e aproxima ciência, cultura e conservação na restauração da espécie. Maior terra indígena do Mato Grosso Sul, com 539 mil hectares, o território kadiwéu tem sido continuamente afetado pelos incêndios ocorridos no Pantanal. Entre as espécies atingidas está o pau-santo. Nos últimos anos, a árvore passou a ocorrer apenas em áreas muito remotas do território, comprometendo o acesso dos próprios indígenas à resina extraída da espécie — matéria-prima da tinta preta usada na decoração da cerâmica e responsável pelo brilho característico do acabamento das peças. Os Kadiwéu cozinham os galhos secos da árvore para extrair a resina negra usada na pintura das cerâmicas. Além do impacto positivo para o meio-ambiente, a restauração do pau-santo facilita o acesso dos indígenas à resina, fortalecendo a continuidade da tradição sociocultural na comunidade. Todas as demais colorações utilizadas nas cerâmicas também são retiradas de itens coletados na natureza, como pedras e sementes. Originário do Gran Chaco — bioma presente na Argentina, Paraguai e Bolívia — o pau-santo (Bulnesia sarmientoi) cresce lentamente e possui madeira densa e aromática. No Brasil, a espécie ocorre em áreas de transição entre o Pantanal e o Cerrado, típicas do pantanal chaquenho. Recuperar a espécie ajuda a preservar tanto a cultura Kadiwéu quanto o equilíbrio ecológico dessa região. Para localizar a espécie em campo, pesquisadores combinaram estudos científicos com o conhecimento tradicional dos Kadiwéu. “Conversas com o cacique, com os brigadistas – a maioria de origem indígena - e com as mulheres ceramistas foram fundamentais para traçarmos a rota de acesso às árvores para coleta das sementes que deram origem às mudas”, explica a professora e pesquisadora da UFMS, Fernanda Couto. “De Campo Grande (capital do Estado) até essa região da terra indígena, são mais de sete horas de viagem. É bem longe e de difícil acesso”, completa. Embora considerada ameaçada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), no Brasil o pau-santo consta apenas do apêndice II da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES). Essa classificação indica que, apesar de não estar em risco crítico, a espécie requer controle para evitar a deterioração do seu estado de conservação. O projeto contribui para incluir o pau-santo no radar das espécies ameaçadas no país, favorecendo ações de restauração e estudos voltados ao manejo sustentável. Expedições conjugam restauração e tradição A iniciativa de restauração do pau-santo nasceu do diálogo com outras equipes de pesquisa da UFMS, responsáveis por estudos sobre efeitos do fogo e da inundação no Pantanal. Durante as expedições, pesquisadores identificaram o pau-santo como uma das espécies mais raras no campo e mais desafiadoras para a produção de mudas. “Havia outras espécies igualmente importantes para restauração, mas o pau-santo era muito mencionado porque ninguém conseguia produzir as mudas a partir das raízes da planta. Ficamos instigados pelo desafio”, explica Letícia. A parceria com o FUNBIO começou em 2022. No mesmo ano, a equipe da professora Letícia registrou a primeira coleta de frutos maduros de pau-santo no país, permitindo a produção inicial de mudas a partir de sementes da planta no viveiro da Aldeia Barro Preto, criado com apoio da Mupan/Wetlands International, em território Kadiwéu. Em 2023, o brigadista Laercio Fernandes Ramos registrou a primeira floração da espécie no Brasil. Em 2024, foram plantadas as oito primeiras mudas de pau-santo no território Kadiwéu. No mesmo ano, alunos das aldeias indígenas localizaram novas sementes das árvores geolocalizadas em expedições anteriores. A coleta ampliou a escala do projeto e viabilizou a produção de mais de 400 mudas, que deram origem ao plantio realizado em novembro de 2025. As expedições incluíram ainda capacitação de coletores, intercâmbio de saberes com a comunidade indígena e atividades de fortalecimento cultural. As mudas foram plantadas em áreas definidas como prioritárias para a recuperação do território pós-incêndio. Parte delas ficou próxima às casas das ceramistas, facilitando o acesso das mulheres indígenas à resina utilizada na produção das peças. Crianças de diferentes aldeias também participaram do plantio, batizando as mudas e acompanhando seu desenvolvimento — um gesto simbólico para garantir que a tradição siga adiante com as próximas gerações. Sobre o projeto: A iniciativa “Estado de conservação, restauração ecológica e cadeia produtiva de espécies vegetais nativas de interesse indígena no Pantanal”, realizada pelo Laboratório de Ecologia da Intervenção da UFMS e pela Fundação de Apoio à Pesquisa, ao Ensino e à Cultura (FAPEC), integra o programa Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre). O programa é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Funbio como executor financeiro. Parcerias: comunidade Kadiwéu, Associação de Brigadistas Indígenas da Nação Kadiwéu (ABINK), PrevFogo/Ibama, viveiro Flora do Cerrado da Prefeitura de Campo Grande, LASA/UFRJ, PELD/NEFAU, Associação das Mulheres Indígenas Kadiwéu (AMAK), Associação das Comunidades Indígenas da Reserva Kadiwéu (ACIRK), Culture of Resistance Network, EUTR, Usina de Triagem de Resíduos Sólidos e Canal Árvores & Rios.
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